quarta-feira, agosto 06, 2008

Passa o bafômetro no Congresso

Você já ouviu a piada sobre o bafômetro? O cara bebe além da conta e quer dirigir até sua casa. Temendo ser preso e pagar uma multa, ele bola um plano pra desmoralizar a fiscalização: embebeda o filho pequeno. Dessa maneira, quando for parado pela polícia e comprovarem que está bêbado ele dirá: o bafômetro não funciona correto. Testem no meu filho! Testem!

E tem outra, e mais outra, porque somos pródigos em fazer piadas contra a lei. Nenhuma mais eficiente que a do lobby da cerveja. A piada da coligação de agências de publicidade, emissoras de televisão e fabricantes, unidos para derrubar o projeto do governo que propunha restringir a publicidade na televisão.

Em 1996, homologou-se uma lei proibindo o anúncio de bebidas alcoólicas antes das 21 horas. A cerveja ficou de fora porque consideraram que ela possui um baixo teor alcoólico. Uma aberração, pois para ficar bêbado o que interessa é a quantidade de álcool ingerida, e cerveja foi inventada para se beber muito.

Ninguém considerou o apelo da imagem de atores jovens, bonitos e bem sucedidos, e de mulheres gostosas em trajes sumários, bebendo na maior farra. As campanhas para seduzir novos consumidores merecem teses de psicologia e sociologia, pelo poder de aliciamento entre jovens e mulheres. Adeus às velhas imagens de homens gordos e bigodudos com canecas espumantes.

O ministro da Saúde José Gomes Temporão fez do combate ao abuso de álcool uma das principais metas do seu ministério. Temporão e a saúde do povo brasileiro foram derrotados pelo Congresso. As lideranças partidárias entraram em acordo para retirar da pauta e não votar o projeto de lei que restringia a publicidade de cerveja. Em nome da 'liberdade de expressão', a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap) fez uma campanha poderosa contra o projeto de lei. Ninguém atentou para o sofrimento das famílias brasileiras com filhos, pais, mães, irmãos ou esposas alcoólatras.

No nosso congresso existem proprietários de emissoras de TV e não foi difícil mobilizar esses ricos políticos. Eles discursaram em defesa da 'liberdade de expressão'. Nenhum referiu em quanto os seus bolsos seriam sangrados, se as propagandas milionárias deixassem de ser vinculadas. Preferiram a parola sobre o direito de 'informar e formar opiniões', a mesma com que a Abap e as televisões nos bombardearam durante as semanas que precederam a votação no Congresso. Venceram as forças do atraso, as que não pensam nas vítimas do alcoolismo.

A 'lei seca', aplicação de penas a quem dirige embriagado, também gerou uma leva de protestos, sobretudo dos que deixaram de ganhar dinheiro. As estatísticas, comprovando a queda no número de acidentes de trânsito e a diminuição de gastos nos hospitais, convencem mais que os protestos. A piada é a nossa incoerência. Assistimos ao jornal da televisão em que são exibidos os milagres do bafômetro, pela simples aplicação de uma lei antiga. Nos intervalos, as mesmas boazudas nos instigam a encher a cara e deixar rolar. E no rabicho da propaganda, um conselho escrito para os que lêem rápido: se beber não dirija. Dá pra engolir? Talvez seja a tal 'liberdade de expressão', o modo de 'informar e formar opiniões'.


Fonte: Terra Magazine - Ronaldo Correia de Brito - Do Recife (PE)

3 comentários:

[..] disse...

E restringir a publicidade de cerveja ou qualquer outro tipo de bebidas / cigarros vai diminuir o uso desses mesmos agentes como ? As pessoas vão parara de consumir apenas porque não aparece na TV ?

Acho díficil.

E o problema nem é beber uma cervejinha no final da tarde, é muito mais beber de forma irresponsável. E pra isso, não adianta termos milhões de leis e corvéias e mais corvéias taxando e sobretaxando as bebidas, se, o que falta é educação ao povo.

E eu acho que fere a liberdade essas proibições à publicidade de cerveja e cigarro, afinal, eles apenas vendem o peixe deles, como os cursinhos pré-vestibulares que são totalmente descartavéis e não adicionam absolutamente nada na vida escolar de um estudante, apenas, um decoreba sem fim e técnicas para se passar no vestibular, mas faz quem quer, assim como, consome bebidas e cigarros e qualquer outra coisa quem quer.

Daqui uns dias, vão querer proibir também a propaganda de chocolate, que causa uma dependência tão ou mais forte do que o álcool.

Mas, o que mais me admira mesmo é um professor ter opiniões tão medievais como as suas.

Mente aberta professor, mente aberta ;)

Alberto Ricardo Präss disse...

1) o texto não é de minha autoria, logo não tenho compromisso em concordar com cada palavra
2) justamente por ser um professor tenho compromisso com as pessoas que são manipuladas.
Procure pesquisar sobre um fenômeno moderno chamado REPRESENTAÇÕES SOCIAIS e verá o quanto todos nós somos manipulados.
É impossível não ser. Somos seres sociais.

Não queira comparar gêneros alimentícios (que eventualmente podem realmente fazer mal) com algo que é nitidamente um venêno: o álcool.

Se as bebidas fossem descobertas atausi, jamais seriam liberadas.

Sei do que falo. Meu avô e meu pai morreram de cirrose.

O texto deixa muito claro a intenção: não se trata de liberdade de expressão ou democracia, mas sim de ganhar dinheiro vendendo a morte.

Por último: seja qual for a sua idéia, ela é apenas mais uma.

Assim como as minhas.

Elas não são a VERDADE. São apenas opiniões, fruto de nossas formações distintas e certamente das manipulações diferentes que sofremos.

Eneida disse...

"Daqui uns dias, vão querer proibir também a propaganda de chocolate, que causa uma dependência tão ou mais forte do que o álcool."


Como é?

Chocolate dá dependência MAIS FORTE do que ÁLCOOL?

Tem certeza?