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domingo, agosto 14, 2011

Entrevista: CARL SAGAN - A certeza me aborrece


O autor da série de televisão "Cosmos" prefereos excitantes mistérios do Universo às verdades que jazem em livros empoeirados

Selma Santa Cruz


Quando tinha 8 anos de idade, Carl Sagan brincava nos terrenos baldios do bairro do Brooklin, em Nova York, onde nasceu, e se imaginava um herói. Olhos voltados para o céu, sonhava repetir as façanhas do aventureiro John Carter, o personagem de Edgar Rice Burroughs que pousava em Marte e lá descobria lindas princesas, guerreiros impiedosos e animais de 3 metros de altura. Aos 10 anos, fascinado pelas luzes que via brilhar no firmamento, Sagan foi à livraria da esquina e pediu um livro sobre estrelas. Deram-lhe um, com fotos de famosas atrizes de Hollywood. Hoje, com 46 anos, tornou-se ele próprio um astro de televisão com sua série "Cosmos", uma fascinante e didática viagem pelos mistérios do Universo, cujo primeiro de treze capítulos estreou neste domingo no Brasil, transmitido pela TV Globo, depois de vista por dezenas de milhões de telespectadores em todo o mundo.
Astrofísico, professor de Astronomia e Ciências Espaciais na Cornell University, no Estado de Nova York, autor de doze livros, entre eles "Cosmos", produzido paralelamente à série de TV, o cientista Sagan revelou-se uma espécie de mago da ciência, um envolvente e acessível expositor de temas intrincados, nessa série que lhe custou três anos de trabalho exaustivo, devorou um orçamento de 8,5 milhões de dólares bancados por três emissoras de TV* e foi filmada em doze países diferentes. Ao longo de seus treze capítulos - a Globo vai apresentar um capítulo por mês -, "Cosmos" presenteia o espectador com setenta seqüências com efeitos especiais que simulam à perfeição as aventuras das viagens interplanetárias das melhores super-produções de Hollywood. Mais importante que isso, traça um painel da saga humana num universo interpretado à luz da ciência e da emoção. Em Cornell, Sagan deu esta entrevista a VEJA:
VEJA - As civilizações antigas eram mais fascinadas pelo Universo que o homem moderno. Não é um paradoxo?SAGAN - Os antigos viviam a maior parte do tempo ao ar livre. Nós vivemos confinados entre concreto, vidros e metais - e não olhamos com freqüência para o céu. Tornamo-nos alienados da natureza, e isso é extremamente perigoso.
VEJA - Então, qual a razão do sucesso do livro e da série "Cosmos" para a televisão?SAGAN - Especular sobre o Universo é um traço humano fundamental, sempre foi. Vivemos um período em que as interrogações surgidas da especulação têm respostas com rigor científico. Isso é fascinante do ponto de vista intelectual e também o é do ponto de vista emocional, porque se relaciona com o que somos, de onde viemos e para onde vamos. Considero-me um privilegiado por espalhar essa mensagem.
VEJA - É sempre possível tornar a informação científica acessível e atraente, mesmo quando se refere a questões sabidamente complicadas?SAGAN - É do interesse do cientista popularizar a ciência, mas deveria ser também um prazer. A maioria dos cientistas escolheu essa profissão porque ama a ciência. Um poeta geralmente gosta de recitar seus poemas - e creio que o mesmo deve ocorrer com um cientista. Mas, desde os tempos de Pitágoras, há cientistas que consideram a ciência algo destinado às elites. Essa é uma noção perigosa, em grande parte responsável pelo desinteresse popular. Ciência é um prazer, uma alegria. Além do mais, sabemos que a maior parte da pesquisa científica é financiada por verbas públicas. Por isso, ela tem o dever de voltar ao público não apenas em forma de benefício mas também em forma de conhecimentos.
VEJA - No entanto, o senhor se opôs ao programa Apollo, que levou o homem à Lua. Por quê?SAGAN - O programa Apollo não era um programa científico, mas político. Foi a resposta americana ao vôo orbital do soviético Iuri Gagarin, em 12 de abril de 1961, e ao fiasco da tentativa de invasão da baía dos Porcos, em Cuba, ocorrida cinco dias depois. Kennedy disse que queria pôr um homem na Lua e fazê-lo retornar com segurança, até o fim da década. Ele não disse que queria entender a origem da Lua até o fim da década. Tanto isso é verdade que o primeiro cientista a pisar na Lua foi também o último. E mais: o programa foi cancelado exatamente quando começou a fazer progressos científicos. Por isso - e pode parecer paradoxal - fui contra o início do programa e contra o seu fim. No início, porque era contra os vôos tripulados, muitíssimo mais dispendiosos. Sai incrivelmente mais barato enviar uma nave não tripulada para se obter os mesmos resultados científicos.
VEJA - O governo americano tem reduzido sistematicamente as verbas para programas espaciais. O senhor vê nisso um acerto, tendo em vista que há problemas dramáticos a resolver aqui mesmo na superfície do planeta?SAGAN - Os governos devem ter metas de curto e de longo prazo. Se nos preocuparmos apenas com as de curto prazo, estaremos sendo tolos. Essa redução de verbas é um erro e nos criará dificuldades para resolver os problemas que surgirão no começo do século XXI. Isso é particularmente importante para países como o Brasil, que terá um papel cada vez mais importante na cena internacional.
VEJA - O senhor tem uma visão otimista da capacidade da ciência para resolver os problemas da vida. Ao mesmo tempo, costuma alertar para a tendência à autodestruição das civilizações que atingem certo grau de evolução. Quem vencerá?SAGAN - Estamos numa fase crítica porque, pela primeira vez, dispomos de meios para a destruição da espécie humana. Veja bem, "ciência" é apenas uma palavra latina que quer dizer "conhecimento". A vida no planeta vai depender muito mais, nas próximas décadas, da política que da ciência. São pouquíssimos os países que podem tomar decisões sem afetar os demais. Veja, por exemplo, a questão do desflorestamento da bacia amazônica. Não se trata de um problema apenas brasileiro, mas tem implicações globais - e não necessariamente negativas. Ha indícios de que o desflorestamento pode ter aspectos positivos, como um maior resfriamento do planeta, o que eventualmente compensaria o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis.
VEJA - O senhor considera a ameaça nuclear mais séria para a sobrevivência do planeta que o lento processo de alteração do meio ambiente?SAGAN - O que mais preocupa, sem dúvida, é a ameaça de uma guerra nuclear. Neste momento, 15 000 ogivas nucleares estão direcionadas para atacar cidades da Europa Ocidental, da União Soviética e dos Estados Unidos. Uma única dessas armas tem o potencial de destruição de todas as bombas detonadas durante a II Guerra Mundial. Estamos literalmente sentados sobre um barril de pólvora.
VEJA - O senhor é criticado por outros cientistas quando defende a possibilidade de vida em outros planetas. A descoberta da inexistência de micróbios em Marte alterou suas convicções?SAGAN - Essa questão é extremamente importante. Estamos sozinhos no Universo ou há outros seres? Existem micróbios em outros mundos? E vida inteligente? Não há respostas fáceis, não basta pousar uma vez em Marte para se saber se existem por lá uns seres esverdeados ou não. Como poderíamos, hoje, concluir que não há vida no resto do Universo, se existem 400 bilhões de sóis apenas na Via-Láctea, a galáxia em que está a Terra, e se há pelo menos mais 100 bilhões de galáxias além da nossa? A química que produz a vida é reproduzida facilmente por todo o cosmos. Por que então seríamos tão privilegiados? O Universo é três vezes mais velho que a Terra; deve haver, portanto, lugares em que houve mais tempo para a evolução biológica que em nosso planeta. Parece improvável que sejamos os únicos seres inteligentes. É possível, mas é improvável.
VEJA - Por que nem todos concordam que a exobiologia - que pesquisa a vida extraterrestre - seja uma ciência?SAGAN - É uma ciência e não uma especulação porque podemos fazer algo concreto para obter respostas. Podemos enviar espaçonaves a outros mundos e mesmo em Marte creio que não está totalmente excluída a possibilidade de existir vida microbiológica. Também podemos usar imensos radiotelescópios para captar sons e, eventualmente, mensagens de outros mundos. Mesmo que essa busca, por muito tempo, e por vários mundos, leve à conclusão de que não há vida, não teremos perdido nosso tempo. Teremos, pelo contrário, descoberto algo muito importante: que a vida, como a conhecemos, é raríssima, talvez única. Isto, em si, é uma resposta preciosa. E, afinal, se não encontrarmos sinais de vida no Universo é ainda possível supor que civilizações inteligentes se tenham destruído antes de chegar à capacidade tecnológica de comunicação interplanetária - algo como o que nos preocupa no momento em relação à Terra.
VEJA - As pessoas comuns desconfiam dos cientistas?SAGAN - A ciência gerou quase todas as facilidades da vida moderna e melhorou consideravelmente a condição da existência humana, mas criou também os instrumentos para a destruição em massa. Desde criança, vemos na figura do cientista aquele estereótipo do maluco e é fácil culpá-lo pelo desenvolvimento de armas atômicas. Mas o emprego dessas armas está nas mãos dos políticos e dos militares, e a eles devemos dirigir nossas preocupações. Além disso, a ciência lida com o mundo como ele é e não como gostaríamos que fosse. Um exemplo desse conflito é o debate entre o evolucionismo darwiniano e a teoria bíblica da criação. É cômoda a idéia de que o mundo foi criado há 6 000 anos por um deus benigno e que tudo se passou exatamente como descreve o livro do Gênesis. Ocorre que os fatos não correspondem a essa versão e as pessoas muito apegadas à Bíblia têm uma razão adicional para desconfiar da ciência. Temos que lidar com o mundo real e não com uma história velha que era ciência para os babilônios, não para nós.
VEJA - Esse conflito entre religião e ciência é incontornável?SAGAN - Algumas religiões são mais resistentes que outras às descobertas científicas. Nada exclui a possibilidade de o Universo ter sido criado há 15 bilhões de anos por alguma divindade que se aposentou desde então, já que não há evidência de intervenção divina na história mais recente. A idéia de um Deus remoto, passivo, é certamente possível, não deve ser excluída. Mas o papel da religião não é fazer ciência, é esclarecer as relações entre os seres humanos, ajudar-nos a entender nossas obrigações morais. Muitos dos escritos religiosos são literatura do mais alto nível e merecem ser estudados sob esse prisma. Não há conflito entre religião e ciência, se cada um fica em sua área.
VEJA - O senhor adota um tom quase religioso quando fala dos mistérios do Universo. Como encara esses mistérios que a ciência não explica?SAGAN - O Universo é algo que gera reverência, respeito. Em termos de tempo e espaço, sua escala torna a existência humana microscópica. É fascinante que as leis da natureza sejam as mesmas em todo o cosmos. A lei da gravidade, por exemplo, funciona aqui como a 1 bilhão de anos-luz de distância. Olhemos para cada detalhe, mínimo que seja, como para uma folha, e veremos que sua perfeição e harmonia são deslumbrantes. Creio que a folha resulta do processo de seleção natural, indicado por Darwin, ao longo de quase bilhões de anos de evolução da vida na Terra. Se olhamos essa mesma folha através de um microscópio, ficamos ainda mais maravilhados. Se alguém quer chamar esse sentimento de religioso, isso não me incomoda.
VEJA - O senhor acredita que o homem um dia poderá viver fora da Terra?SAGAN - Sim, se não provocarmos a destruição do planeta nos próximos cinqüenta ou 100 anos. No futuro poderemos construir um novo mundo para viver, feito de material coletado no próprio espaço - um novo planeta que orbitasse em torno do Sol, por exemplo. Os espíritos irrequietos sempre tiveram, ao longo da história, a necessidade de abrir novas fronteiras. Dentro de cinqüenta anos, as migrações interplanetárias poderão ser tecnologicamente realizáveis. Também seria tecnologicamente possível alterar o ambiente de planetas existentes para que pudessem acomodar a vida humana.
VEJA - Com a série "Cosmos", o senhor se tornou uma celebridade. Como um cientista convive com isso?SAGAN - É muito difícil lidar com a fama e só agora entendo por que jovens de 20 anos entram em colapso com ela. Já que aconteceu comigo, tanto melhor que seja agora, e não quando eu era mais jovem.
VEJA - Até que ponto a série de televisão criou interesse popular pela ciência e pelos mistérios do Universo?SAGAN - Até o final de 1983, a série terá sido vista por 150 milhões de pessoas em países tão diversos como Zâmbia, Hungria, Arábia Saudita, Romênia e Brasil. O livro "Cosmos" está na lista dos dez mais vendidos em dezenas de países e, só nos Estados Unidos, vendeu 250 000 exemplares. Já fornecemos material de projeção para 450 planetários em todo o mundo. Mas o que mais me impressiona são as cartas: já recebi mais de 10 000.
VEJA - O senhor sentiu falta do trabalho de pesquisa científica enquanto estava ocupado com o projeto Cosmos?SAGAN - Tirei dois anos e meio de licença da Cornell University para trabalhar no projeto Cosmos e também no projeto Voyager, da NASA, para o qual fiz análises de imagens enviadas de Júpiter e Saturno, razão pela qual não fiquei totalmente afastado da pesquisa. Embora goste muito de popularizar a ciência, gosto mais ainda de fazer ciência e estou satisfeito por voltar a Cornell, aos laboratórios e às salas de aula. Sinto que tenho de novo os pés no chão, depois de tanto tempo flutuando em Hollywood.
VEJA - De volta à pesquisa, o senhor sente alguma frustração pelo fato de que, na Astronomia, quanto mais se descobre mais resta a descobrir?SAGAN - De modo algum. Isso é muito mais excitante que aprender tudo sobre um assunto e colocar o conhecimento de lado, num livro empoeirado. O mistério me excita, a certeza me aborrece. Em ciência, cada avanço importante levanta mais questões que as que resolve. As duas últimas décadas foram extremamente ricas: examinamos vários novos mundos de perto. Voamos próximo de alguns e pousamos em três - a Lua, Marte e Vênus. Isso é um salto inimaginável na história humana. Nossos antepassados olhavam para os planetas como para pontos de luz. Nós os conhecemos como mundos, lugares para os quais podemos viajar.
VEJA - O senhor entende que a exploração do espaço, nas duas últimas décadas, já deu frutos importantes, ou eles só aparecerão no futuro?SAGAN - Já fizemos muitas conquistas. Os satélites meteorológicos representam uma enorme economia ao anunciar tempestades e furacões. Os satélites de comunicações, que permitem a ligação telefônica e a transmissão de imagens de televisão entre os continentes, são um avanço extraordinário. Os satélites de reconhecimento militar têm um efeito altamente estabilizador na política internacional, pois com eles é praticamente impossível uma potência surpreender a outra - o que diminui a possibilidade de guerra.
VEJA - Que projetos ocuparão o tempo do senhor daqui para a frente?SAGAN - Sempre faço muitas coisas ao mesmo tempo porque uma atividade relaxa a tensão da outra. Continuo a analisar o material das missões Voyager a Júpiter e Saturno. Estou também envolvido com programas de captação de sinais de outras civilizações através de radiotelescópios. E começo a escrever um novo livro, "Contact", e um roteiro com o mesmo nome para um filme que será rodado pela Columbia Pictures. Trata-se de um trabalho de ficção, que só pretendo concluir daqui a dois anos.
VEJA - Como será essa história?SAGAN - É um romance de idéias, no qual pretendo mostrar que o cientista é uma pessoa comum. A história começa com o recebimento de uma mensagem complexa, enviada por outra civilização no espaço, e narra os esforços para decodificá-la. Surgem reações de áreas políticas e religiosas. Não posso dar mais detalhes. O resto é mistério.
VEJA - Que áreas da ciência o senhor acha que evoluirão mais sensivelmente nos próximos anos?SAGAN - Parece claro que há um potencial enorme nas áreas da Biologia Molecular, da Engenharia Genética, da Astronomia e da Astrofísica. É importante que a ciência avance em muitos campos ao mesmo tempo porque ela, como a natureza, é um todo. Dividimos o estudo em disciplinas por conveniência, mas o entendimento do Universo pressupõe avanços em todas as direções do conhecimento humano.
*A KCET, emissora educativa de Los Angeles, a BBC de Londres e a Polytel International, da Alemanha Ocidental.




http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/ent_sagan.html





terça-feira, novembro 30, 2010

NASA dará entrevista para anunciar importante descoberta na busca de vida ET

Nov. 29, 2010

Dwayne Brown 
Headquarters, Washington                                
202-358-1726 
dwayne.c.brown@nasa.gov 

Cathy Weselby 
Ames Research Center, Moffett Field, Calif. 
650-604-2791 
cathy.weselby@nasa.gov 
MEDIA ADVISORY: M10-167

NASA SETS NEWS CONFERENCE ON ASTROBIOLOGY DISCOVERY; SCIENCE JOURNAL HAS EMBARGOED DETAILS UNTIL 2 P.M. EST ON DEC. 2

WASHINGTON -- NASA will hold a news conference at 2 p.m. EST on 
Thursday, Dec. 2, to discuss an astrobiology finding that will impact 
the search for evidence of extraterrestrial life. Astrobiology is the 
study of the origin, evolution, distribution and future of life in 
the universe. 

The news conference will be held at the NASA Headquarters auditorium 
at 300 E St. SW, in Washington. It will be broadcast live on NASA 
Television and streamed on the agency's website at 
http://www.nasa.gov. 

Participants are: 
-     Mary Voytek, director, Astrobiology Program, NASA Headquarters, 
Washington 
-     Felisa Wolfe-Simon, NASA astrobiology research fellow, U.S. 
Geological Survey, Menlo Park, Calif. 
-     Pamela Conrad, astrobiologist, NASA's Goddard Space Flight 
Center, Greenbelt, Md. 
-     Steven Benner, distinguished fellow, Foundation for Applied 
Molecular Evolution, Gainesville, Fla. 
-     James Elser, professor, Arizona State University, Tempe 

Media representatives may attend the conference or ask questions by 
phone or from participating NASA locations. To obtain dial-in 
information, journalists must send their name, affiliation and 
telephone number to Steve Cole at stephen.e.cole@nasa.gov or call 
202-358-0918 by noon Dec. 2. 

For NASA TV streaming video and downlink information, visit: 



http://www.nasa.gov/ntv 





For more information about NASA astrobiology activities, visit: 



http://astrobiology.nasa.gov 

 
Fonte: NASA

quarta-feira, novembro 10, 2010

Brasil é 13º em produção científica, diz Unesco

Neste ano, o relatório da UNESCO sobre Ciência (versão em português), que analisa o status da ciência em torno do mundo, dedicou um capítulo inteiro sobre o Brasil. De acordo com o documento, a nona economia do mundo avançou nos investimentos em pesquisa e desenvolvimento graças ao crescimento econômico.

Foram US$23 bilhões gastos, em 2008, algo comparável aos investimentos da Espanha (US$ 20 bilhões) e Itália (US$22 bilhões) em termos absolutos. Porém, em comparação a produção, o Brasil ficou para trás em relação a estes países. Ocupou o 13º lugar no ranking mundial de produção científica.


Ainda que os números de artigos científicos e doutorados finalizados a cada ano tenham aumentado – 26.482 artigos científicos em periódicos indexados pelo Thomson Reuter’s Science Citation Index em 2008 – é possível notar falta de homogeneidade na distribuição regional dos profissionais acadêmicos e na base de conhecimentos do país: 60% de todos os artigos científicos se originaram em apenas sete universidades, sendo que quatro delas estão no estado de São Paulo. Também há uma falta de homogeneidade nos campos das diferentes disciplinas.

No Brasil, entre 2000 e 2008, houve aumento no gasto interno bruto em pesquisa e desenvolvimento de 28% - de R$ 25,5 bilhões para R$ 32,8 bilhões. Em 2000 os investimentos correspondiam a 1,02% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto em 2008, foi de 1,09%. Mas a Unesco indica que seria preciso mais. Para alcançar uma boa média de financiamento público, o Brasil precisaria investir um adicional de R$ 3,3 bilhões. Esse montante corresponde, grosso modo, a três vezes o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Outra característica marcante é que o setor público arca com a sua maior parte (55%), algo comum a quase todos os países em desenvolvimento. Aproximadamente três quartos dos cientistas continuam trabalhando no setor acadêmico.

Fonte:  IG

sexta-feira, agosto 13, 2010

A "Ameaça" do Criacionismo

Isaac Asimov

Os cientistas pensavam que era definitivo. O universo, eles decidiram, tem cerca de 20 bilhões de anos de idade, e a própria Terra tem 4,5 bilhões de anos. Formas de vida simples apareceram a mais de três bilhões de anos atrás, tendo se formado espontaneamente a partir de matéria bruta. Elas tornaram-se mais complexas através de lentos processos evolucionários e os primeiros ancestrais hominídeos da espécie humana surgiram há mais de quatro milhões de anos atrás. O próprio Homo sapiens – a espécie humana atual, pessoas como você e eu – anda pela Terra por pelo menos 50.000 anos.


Mas aparentemente não é definitivo. Há americanos que crêem que a Terra tem apenas 6.000; que os seres humanos e todas as outras espécies foram trazidos à existência por um Criador divino sendo variações de seres separados eternamente e que não há nenhum processo evolucionário.


Eles são criacionistas – eles chamam a si próprios de criacionistas “científicos” – e eles são uma força crescente no país, exigindo que as escolas sejam forçadas a ensinar seus pontos de vista. As legislaturas dos estados, desejosas de votos, estão começando a sucumbir à pressão. Em talvez 15 estados foram introduzidas leis, colocando em evidência os posntos de vista criacionistas, e em outros, fortes movimentos estão ganhando terreno. No Arkansas foi aprovada nessa primavera uma lei exigindo que o ensino do criacionismo receba tempo igual, e ela deve entrar em vigor em Setembro de 1982, embora a União Americana para as Liberdades Civis tenha feito um abaixo-assinado em nome de um grupo de clérigos, professores e pais para derrubá-la. E um padre da Califórnia chamado Kelly Segraves, o diretor do Centro de Pesquisa da Ciência da Criação tenha entrado na justiça para que as aulas de ciências das escolas públicas ensinassem que há outras teorias da criação alem da evolução, e que uma delas é a versão bíblica. A ação foi a julgamento em Março, e o juiz determinou que os educadores devem distribuir uma declaração política para as escolas e editores de livros-texto explicando que a teoria da evolução não deveria ser vista como “a causa definitiva das origens”. Mesmo em Nova York, o Comitê de Educação tem adiado desde Janeiro uma decisão final, esperada para este mês (Junho de 1981), se será exigido das escolas que incluam o ensino do criacionismo em seus currículos.


O Reverendo Jerry Fallwell, o cabeça da Maioria Moral, que, de seu púlpito na TV, apóia a visão criacionista, afirma ter de 17 a 25 milhões de espectadores (embora a Arbitron estabeleça um número muito mais modesto de 1,6 milhões). Mas há 66 ministérios eletrônicos que têm uma audiência total de cerca de 20 milhões. E em partes do país onde os Fundamentalistas predominam – o assim chamado Cinturão da Bíblia – os criacionistas são maioria.


Eles formam um grupo fervoroso e dedicado, convicto além da argumentação, tanto de seus direitos como de serem portadores da verdade. Encarando uma maioria apática e falsamente segura, grupos pequenos têm usado de pressão intensa e forte campanha – como os criacionista fazem – e têm tido sucesso em abalar e assumir o controle de sociedades inteiras.


Ainda assim, embora os criacionistas pareçam aceitar a verdade literal da história bíblica da criação, isso não significa que todos os religiosos sejam criacionistas. Há milhões de católicos, protestantes e judeus que crêem que a Bíblia é uma fonte de verdade espiritual e aceitam muito dela como sendo mais simbolicamente do que literalmente verdadeiro. Eles não consideram a Bíblia como um livro-texto de ciência, mesmo em seu propósito inicial, e não têm problema algum com o ensino da evolução em suas instituições seculares.


Para aqueles que são treinados em ciência o criacionismo parece-se com um sonho ruim, uma súbita revelação de um pesadelo, a marcha renovada de um exército da noite convocado para desafiar o livre-pensamento e a compreensão das coisas.


Os indícios científicos para a idade da Terra e para o desenvolvimento evolucionário parecem avassaladores para os cientistas. Como pode alguém questioná-los? Que argumentos os criacionistas usam? Qual a “ciência” que faz sua visão ser “científica”? Aqui estão alguns deles.


O Argumento da Analogia


Um relógio implica um relojoeiro, dizem os criacionistas. Se você encontrasse um lindo e intrincado relógio no deserto, longe da civilização, você teria certeza que ele foi feito por mãos humanas e de alguma forma foi deixado lá. Seria absurdo supor que ele tenha simplesmente se formado, espontaneamente, das areias do deserto.


Por analogia, então, se você considerar a humanidade, a vida, Terra, e o universo, tudo infinitamente mais intrincado que um relógio, você crerá muito menos que eles “simplesmente aconteceram”. Eles também, como o relógio, devem ter sido fabricados, mas por mais do que mãos humanas – resumindo, por um Criador divino.


Esse argumento parece irrespondível, e ele tem sido usado (mesmo que geralmente não seja expresso de forma tão explícita) desde a aurora da consciência. Tentar explicar para seres humanos pré-científicos que o vento e a chuva e o sol seguem as leis da natureza e o fazem tão cegamente e sem um guia, teria sido muito pouco convincente para eles. De fato, eles poderiam muito bem te apedrejar até a morte como blasfemo.


Há muitos aspectos do universo que ainda não podem ser explicados satisfatoriamente pela ciência, mas a ignorância implica apenas que a ignorância um dia será conquistada. Render-se à ignorância e chamá-la de Deus tem sido sempre prematuro, e permanece prematuro até hoje.


Resumindo, a complexidade do universo – a incapacidade de alguém de explicá-la por completo – não é por si um argumento para um Criador.


O Argumento do Consenso Geral


Alguns criacionistas salientam que a crença em um Criador é geral entre todos os povos todas as culturas. Certamente essa busca unânime sugere uma verdade maior. Não haveria uma crença unânime em uma mentira.


Crença geral, entretanto, não é realmente surpreendente. Quase todas as pessoas na Terra que refletem sobre a existência do mundo assumem que ele foi criado por um deus ou deuses. E cada grupo inventa detalhes completos para a história. Não há duas histórias da criação semelhantes. Os gregos, os nórdicos, os japoneses, os hindus, os índios americanos, e assim por diante, todos têm seus próprios mitos da criação, e todos eles são reconhecidos pelos americanos de herança judaico-cristã como “apenas mitos”.


Os antigos hebreus também tinham uma história da criação – duas delas, na verdade. Há uma história primitiva sobre Adão e Eva no Paraído, com o homem criado primeiro, depois os animais, então as mulheres. Há também um conto poético de Deus criando o universo em seis dias, com animais precedendo o homem, e o homem e a mulher criados juntos.

Esses mitos hebráicos não são inerentemente mais críveis do que qualquer um dos outros, mas eles são os nossos mitos. O consenso geral, é claro, não prova nada. Pode haver uma crença unânime em algo que não é verdadeiro. A opinião universal durante milhares de anos de que a Terra era chata nunca achatou sua forma esférica em nem um centímetro.


O Argumento do Amesquinhamento


Os criacionistas freqüentemente acentuam o fato de que a evolução é “apenas uma teoria”, dando a impressão de que uma teoria é um palpite vazio. Um cientista, conclui-se, acorda uma manhã sem nada em particular para fazer, decide que a lua é feita de queijo Roquefort e instantaneamente proclama a teoria do queijo Roquefort.


Uma teoria (da maneira como a palavra é usada pelos cientistas) é uma descrição detalhada de alguma faceta do funcionamento do universo que é baseada em longa observação e experimentação e que tem sobrevivido ao estudo crítico dos cientistas em geral.


Por exemplo, temos a descrição da natureza celular dos organismos vivos (a “teoria das células”); de objetos que se atraem mutuamente de acordo com uma regra fixa (a “teoria da gravitação”); da energia agindo em montantes discretos (a “teoria quântica”); da luz viajando através do vácuo a uma velocidade fixa e mensurável (a “teoria da relatividade”), e assim por diante.


São todas teorias; são todas firmemente fundamentadas; são todas aceitas como descrições válidas deste ou daquele aspecto do universo. Elas não são nem palpites nem especulações. E nenhuma é melhor fundamentada, examinada mais de perto, mais questionada criticamente e mais largamente aceita do que a teoria da evolução. Se ela é “apenas” uma teoria, isso é tudo o que ela tem que ser.


O criacionismo, por outro lado, não é uma teoria. Não há nenhum indício, cientificamente falando, que a apóie. O criacionismo, ou pelo menos a variedade particular aceita por muitos americanos, é uma expressão de uma lenda dos primórdios do Oriente Médio. Ela é descrita com justiça como “apenas um mito”.


O Argumento da Imperfeição


Os criacionistas, recentemente, têm enfatizado o pano de fundo “científico” de suas crenças. Eles salientam que há cientistas que baseiam suas crenças criacionistas em um estudo cuidadoso de geologia, paleontologia e biologia e produzem “livros-texto” que incorporam essas crenças.


Praticamente todo o corpo científico do criacionismo, entretanto, consiste em salientar imperfeições da visão evolucionista. Os criacionistas insistem, por exemplo, que os evolucionistas não têm estágios intermediários entre espécies no registro fóssil; que as datações através do decaimento radioativo são incertas; que interpretações alternativas desse ou daquele indício são possíveis e assim por diante.


Devido ao fato de que a visão evolucionária não é perfeita e não é consenso entre todos os cientistas, os criacionistas argumentam que a evolução é falsa e que os cientistas, ao apoiar a evolução, estão baseando seus pontos de vista em fé cega e dogmatismo.


Até certo ponto, os criacionistas estão certos aqui. Os detalhes da evolução não são perfeitamente conhecidos. Os cientistas têm ajustado e modificado as sugestões de Charles Darwin desde que ele publicou sua teoria da orgem das espécies através da seleção natural em 1859. Afinal de contas, aprendeu-se muito sobre o registro fóssil e fisiologia, microbiologia, bioquímica, etologia e vários outros ramos das ciências da vida nos últimos 125 anos, e era de se esperar que melhorássemos Darwin. De fato, nós o temos melhorado. E o processo não está terminado, tampouco. Ele nunca estará, enquanto os seres humanos continuarem a questionar e buscarem respostas melhores.


Os detalhes da teoria evolucionária estão em discussão precisamente porque os cientistas não são devotos de uma fé cega e dogmatismo. Eles não aceitam mesmo um grande pensador como Darwin sem questionar, e nem aceitam qualquer idéia, nova ou antiga, sem ser ampla argumentação. Mesmo após acietar uma idéia, eles estão prontos para desconsiderá-la, se novos indícios apropriados aparecem. Se, entretanto, admitimos que uma teoria é imperfeita e detalhes permanecem em discussão, isso refuta a teoria como um todo?


Considere. Dirijo um carro e você dirige um carro. Não sei exatamente como um motor funciona. Talvez você também não saiba. E pode ser que nossas idéias nebulosas e aproximadas sobre o funcionamento de um automóvel estejam em conflito. Devemos concluir, a partir desse desacordo que um automóvel não funciona, ou que ele não existe? Ou, se os nossos sentidos nos forçam a concluir que um automóvel realmente existe e anda, isso significa que ele é puxador por cavalos invisíveis, uma vez que a nossa teoria sobre o motor é imperfeita?


Entretanto muitos cientistas discutem sobre suas crenças divergentes sobre detalhes na teoria evolucionária, ou na interpretação do registro fóssil necessariamente imperfeito, eles aceitam firmemente o processo evolucionário em si.


O Argumento da Ciência Distorcida


Os criacionistas aprenderam terminologia científica suficiente para usá-la em suas tentativas de refutar a evolução. Eles fazem isso de diversas maneiras, mas o exemplo mais comum, pelo menos na correspondência que recebo é a afirmação repetida de que a segunda lei da termodinâmica demonstra que o processo evolucionário é impossível.


Em termos de jardim-da-infância, a segunda lei da termodinâmica diz que toda mudança espontânea é na direção de uma desordem crescente – ou seja, na direção “ladeira abaixo”. Não pode haver construção espontânea do complexo a partir do simples, portanto, porque isso seria mover-se “ladeira acima”. De acordo com o argumento dos criacionistas, desde que, pelo processo evolucionário, formas complexas de vida evoluem de formas simples, esse processo desafia a segunda lei, assim o criacionismo deve ser verdadeiro.


Tal argumento implica que essa falácia claramente visível é, de alguma forma, invisível para os cientistas, que devem, portanto estar ignorando a segunda lei por pura perversidade. Os cientistas, entretando, sabem sobre a segunda lei e não são cegos. É só que o argumento baseado em termos de jardim-da-infância serve apenas para pessoas no jardim-de-infância.


Para elevar o argumento um grau acima do nível de jardim-de-infância, a segunda lei da termodinâmica aplica-se a “sistemas fechados” – ou seja, a um sistema que não recebe energia de fora, ou perde energia para fora. O único sistema verdadeiramente fechado que conhecemos é o universo como um todo.


Dentro de um sistema fechado, há subsistemas que podem aumentar a complexidade espontaneamente, desde que haja uma perda maior de complexidade em outro subsistema interconectado. A mudança global então é uma perda de complexidade de acordo com a segunda lei.

A evolução pode acontecer e formar o complexo a partir do simples, movendo-se ladeira acima, sem violara segunda lei, contanto que outra parte do sistema interconectada – o sol, que fornece energia à Terra continuamente—mova-se ladeira abaixo (como de fato acontece) em uma taxa muito mais rápida do que aquela com que a evolução move-se ladeira acima. Se o sol deixasse de brilhar, a evolução pararia bem como a vida, eventualmente.


Infelizmente, a segunda lei é um conceito sutil com que a maioria das pessoas não está acostumada a lidar, e não é fácil ver a falácia na distorção dos criacionistas.


Há muitos outros argumentos “científicos” usados pelos criacioniastas, alguns dos quais tiram proveito de áreas em debate na teoria evolucionária, mas cada um deles é tão insincero quanto o argumento da segunda lei.


Os argumento “científicos” são organizados em livros-texto criacionistas especiais, que têm toda a aparência superficial de uma coisa autêntica, e que os sistemas educacionais estão sendo fortemente pressionados a aceitar. Eles são escritos por pessoas que não fizeram nenhum trabalho como cientistas e, enquanto discutem geologia, paleontologia e biologia com a terminologia científica correta, devotam-se quase inteiramente a levantar dúvidas sobre a legitimidade dos indícios e do raciocínio que fundamentam o pensamento evolucionário, supondo que assim o criacionismo passa a ser a única alternativa possível.


Os indícios realmente a favor do criacionismo não são apresentados, é claro, porque não há nenhum outro a não ser a palavra da Bíblia, e não usá-la é a estratégia atual dos criacionistas.


O Argumento da Irrelevância


Alguns criacionistas põem todos os indícios científicos de lado e consideram-nos irrelevantes. O Criador, eles dizem, trouxe a vida, a Terra e o universo inteiro à existência há mais ou menos 6.000 anos atrás, todo completo, com todos os indícios de um desenvolvimento evolucionário com eras de idade. O registro fóssil, o decaimento radioativo as galáxias se afastando foram criadas como estão, e os indícios que eles apresentam são uma ilusão.


É claro, esse argumento é, por si, irrelevante, pois não pode ser provado nem refutado. Na verdade não é um argumento, mas uma declaração. Posso dizer que o universo inteiro foi criado há dois minutos, completo com todos os livros de história descrevendo um passado não-existente em detalhes, e com cada pessoa viva equipada com uma memória completa; você, por exemplo, no processo de ler o meio deste artigo com a memória de ter lido o seu início – que você, na verdade, não leu.


Que tipo de Criador faria um universo contendo uma ilusão tão intrincada? Isso significaria que o Criador formou um universo que conteria seres humanos a quem Ele teria dotado com a faculdade da curiosidade e a habilidade de raciocinar. Ele proveu esses seres humanos com uma quantidade enorme de indícios sutis e consistentes, tudo isso para enganá-los e fazê-los se convencer que o universo havia sido criado há 20 bilhões de anos atrás e desenvolvido através de processos evolucionários que incluem a criação e o desenvolvimento da vida na Terra. Por que?


O Criador tem prazer em nos enganar? Ele se diverte vendo-nos errar? É parte de um tesde ver se os seres humanos irão negar seus sentidos e seu raciocínio agarrando-se ao mito? É possível que o Criador seja um farsante cruel e malicioso, com um senso de humor adolescente perverso?


O Argumento da Autoridade


A Bíblia diz que Deus criou o mundo em seis dias e a Bíblia é a palavra de Deus inspirada. Para o criacionista médio é tudo o que importa. Todos os outros argumentos são apenas um meio tedioso de combater a propaganda de todos aqueles perversos humanistas, agnósticos e ateus que não estão satisfeitos com a clara palavra do Senhor.


Os líderes criacionistas, na verdade, não usam esse argumento porque isso faria com que seu ponto de vista fosse religioso, e eles não poderiam tentar implantá-lo no sistema educacional secular. Eles precisam emprestar as roupas da ciência, não importa quão mal ela caia, e chamar a si próprios de criacionistas “científicos”. Eles também falam apenas no “Criador”, e nunca mencionam que esse Criador é o Deus da Bíblia.


Não podemos, entretanto, levar a sério esse disfarce de ovelha. Enquanto muitos líderes criacionistas podem usá-la em seus pontos “científicos” e “filosóficos”, eles estariam perdidos e seriam ridicularizados se fosse tudo que tivesem.


É a religião que recruta os seus esquadrões. Dezenas de milhões de americanos, que não conhecem ou não entendem os argumentos verdadeiros pró ou mesmo contra a evolução marcham no exército da noite agitando suas Bíblias. E eles são um poder forte e combativo, impermeáveis e imunizados contra a débil lança do simples raciocínio.


Mesmo se eu estiver certo e o caso dos evolucionistas for muito forte, os criacionistas não têm, não importa quão vazio seja o seu caso, o direito de serem ouvidos? Se o seu caso é vazio, não é perfeitamente seguro discuti-lo uma vez que o vazio seria então visível? Por que então os evolucionistas estão tão relutantes em ter o criacionismo ensinado nas escolas públicas na mesma base da teoria evolucionária? Não pode ser que os evolucionistas não estão tão confiantes no seu caso como pretendem? Eles estão com medo de permitir que os jovens tenham uma escolha clara?


Primeiro, os criacionistas são um tanto menos que honestos em sua exigência por tempo igual. Não é o ponto de vista deles que está sendo reprimido: as escolas não são, absolutamente, os únicos locais nos quais ocorre a disputa entre o criacionismo e o evolucionismo. Há igrejas, por exemplo, que têm uma influência muito mais séria sobre a maioria dos americanos do que as escolas. Com certeza, muitas igrejas são bastante liberais e estão em paz com a ciência e acham mais fácil viver com os avanços científicos – mesmo com a evolução. Mas muitas das igrejas não tão modernas e urbanas são bastiões do criacionismo.


A influência da igreja é naturalmente sentida em casa, nos jornais e em toda a sociedade circundante. Ela se faz sentir na nação como um todo, mesmo nas áreas livres da religião, de milhares de maneiras sutis: na natureza dos feriados, em expressões de fervor patriótico, e mesmo em irrelevâncias completas. Em 1968, por exemplo, um grupo de astrônomos circundando a lua foi instruído a ler os primeiros versículos do Gênesis porque a NASA sentiu que deveria aplacar a ira do público devido à violação do firmamento. E o atual Presidente dos Estados Unidos expressou sua simpatia pelo criacionismo.


É apenas na escola que os jovens americanos em geral tem a probabilidade de ouvir uma explicação racional do ponto de vista evolucionário. Eles podem encontrar tal ponto de vista em livros, revistas, jornais ou mesmo, às vezes, na televisão. Mas a igreja e a família podem censurar facilmente o material impresso ou a televisão. Apenas a escola está além do seu controle.

Mas apenas um pouco além. A despeito de que as escolas são agora permitidas de ensinar a evolução, os professores estão começando a não insistir muito sobre ela, sabendo muito bem que seus empregos estão à mercê dos conselhos escolares, sobre os quais os criacionistas vêm sendo uma influência cada vez mais forte.


Então, nas escolas também os estudantes não são solicitados a crer no que eles aprenderam sobre a evolução – apenas a repetir tudo nas provas. Se eles não o fizerem, sua punição não será nada mais do que a perda de uns poucos pontos em um teste ou dois.


Nas igrejas criacionistas, entretando, exige-se que a congregação acredite. Jovens impressionáveis, advertidos de que irão para o inferno se ouvirem a doutrina evolucionária, não a ouvirão com tranqüilidade nem crerão no que ouvirem. Portanto, os criacionistas que controlam a igreja e a sociedade em que vivem e encaram a escola pública como o único lugar onde a evolução é mencionada mesmo que brevemente de maneira favorável, acham que não podem resistir nem a uma competição tão minúscula e assim exigem “tempo igual”.


Você supõe que sua devoção à “justiça” é tal que eles dariam tempo igual à evolução em suas igrejas?


Segundo, o perigo real é a maneira como os criacionistas querem seu “tempo igual”. No mundo científico há uma competição de idéias livre e aberta, e mesmo um cientista cujas sugestões não sejam aceitas é, mesmo assim, livre para continuar a defender o seu caso. Nessa competição de idéias livre e aberta, o criacionismo perdeu, claramente. Ele vem perdendo, na verdade, desde o tempo de Copérnico há quatro séculos e meio. Mas o criacionismo, colocando o mito acima da razão, recusou-se a aceitar a decisão e estão pedindo que o governo force seus pontos de vista nas escolas em nome da livre expressão das idéias. Os professores devem ser forçados a apresentar o criacionismo como se ele tivesse respeitabilidade intelectual igual à doutrina evolucionária.


Que precedente isso estabelece.


Se o governo pode mobilizar sua polícia e suas prisões para assegurar que os professores dêem tempo igual ao criacionismo, eles podem em seguida usar a força para assegurar que os professores declarem o criacionismo como vitorioso, de forma que a evolução seja banida das salas de aula. Teremos estabelecido uma base, em outras palavras, para a ignorância legalmente estabelecida e para o controle de pensamento totalitário. E o que acontece se os criacionistas vencerem? Eles poderiam vencer, você sabe, pois há milhões que se tiverem que escolher entre a ciência e sua interpretação da Bíblia, escolherão a Bíblia e rejeitarão a ciência, apesar dos indícios.


Isso não ocorre somente devido à reverência tradicional e irracional das palavras literais da Bíblia; existe também um desconforto – mesmo medo – da ciência que joga mesmo aqueles que se importam pouco com o fundamentalisimo nos braços dos criacionistas. Por um motivo: a ciência é incerta. As teorias estão sujeitas a revisão, as observações estão abertas a uma variedade de interpretações, e os cientistas discutem entre si. Isso é decepcionante para aqueles não treinados no método científico, que assim, preferem se voltar para a rígida certeza da Bíblia. Existe algo de confortável sobre uma visão que não admite desvio e que poupa a pessoa da dolorosa necessidade de ter de pensar.



Em segundo lugar, a ciência é complexa e desafiante. A linguagem matemática da ciência é compreendida por muito poucos. Os cenários que ela apresentam são assustadores – um universo enorme regido pelo acaso e por regras impessoais, vazio e indiferente, indomável e vertiginoso. Quão confortável, por outro lado, é um mundo pequeno, com uns poucos milhares de anos, sob o cuidado pessoal e imediato de Deus; um mundo em que você conta com Seu cuidado pessoal e onde Ele não te condenará ao inferno se você for cuidadoso e seguir cada palavra da Bíblia da forma que o pastor da televisão interpretar para você.


Terceiro, a ciência é perigosa. Não há dúvida de que gás venenoso, engenharia genética, armas nucleares e usinas de força são aterrorizantes. Pode ser que a civilização esteja se destruindo e que o mundo que conhecemos esteja chegaodo ao fim. Nesse caso, por que não se voltar para a religião e esperar pelo Dia do Julgamento, quando você e os seus companheiros crentes serão elevados ao eterno êxtase e terão ainda a alegria de ver os gozadores e descrentes se contorcerem em tormento para semore.


Então por que eles não poderiam vencer?


Há varios casos de sociedades em que os exércitos da noite têm cavalgado triunfantes sobre as minorias a fim de estavelecer uma ortodoxia poderosa que dita o pensamento oficial. Invariavelmente, a cavalgada triunfante vai na direção de um desastre de longo alcance. A Espanha dominou a Europa e o mundo no século 16, mas na Espanha a ortodoxia vinha primeiro, e toda divergência de opinião era suprimida implacavelmente. O resultado foi que a Espanha ficou na obscuridade e não compartilhou do fermento científico, tecnológico e comercial que borbulhava em outras nações da Europa Ocidental. A Espanha permaneceu numa estagnação intelectual por séculos. No final do século 17, a Franca, em nome da ortodoxia, revogou o Edito de Nantes e expulsou muitos milhares de huguenotes, que adicionaram seu vigor intelectual a terras de refúgio como a Grã-Bretanha, a Holanda e a Prússia, enquantoa Franca foi enfraquecida permanentemente.


Numa época mais recente a Alemanha perseguiu os cientistas judeus da Europa. Eles chegaram aos Estados Unidos e contribuíram imensamente para o seu avanço científico, enquanto a Alemanha perdia tão pesadamente que não se pode dizer quanto tempo vai levar até que ela recupere sua antiga eminência científica. A União Soviética, em sua fascinação com Lysenko, destruiu seus geneticistas, e atrasou as ciências biológicas por décadas. A China, durante a Revolução Cultural, voltou-se contra a ciência ocidental e ainda luta para superar a devastação que resultante.


Como iremos agora, com todos esses exemplos diante de nós, cavalgar de volta ao passado sob a mesma bandeira esfarrapada da ortodoxia? Com o criacionismo a tiracolo, a ciência americana definhará. Criaremos uma geração de ignorantes mal-equipados para dirigir a indústria de amanha, e muito menos para gerar os novos avanços dos dias de depois de amanhã.


Vamos inevitavelmente retroceder à retaguarda da civilização e aquelas nações que mantiverem aberto o pensamento científico tomarão a liderança do mundo e da fronteira do progresso humano. Não creio que os criacionistas planejem realmente o declínio dos Estados Unidos, mas o seu patriotismo expresso em altas vozes é tão ingênuo quanto sua “ciência”. Se eles tiverem sucesso, eles irão, em sua loucura, obter o oposto do que dizem desejar.


Isaac Asimov, “The 'Threat' of Creationism,”


New York Times Magazine, 14 de junho de 1981; de Science and Creationism, Ashley Montagu, ed., New York: Oxford University Press, 1984, págs. 182-193.

sábado, outubro 17, 2009

A improbabilidade de Deus

Muito do que as pessoas fazem é em nome de Deus. Os irlandeses mandam-se uns aos outros pelo ar em nome de Deus. Os árabes mandam-se a si próprios pelo ar em nome de Deus. Os imãs e os aiatolas oprimem as mulheres em nome de Deus. Os papas e os padres celibatários destroçam a vida sexual das pessoas em nome de Deus. Os shohets judeus cortam a garganta de animais vivos em nome de Deus.

As proezas da religião no passado ― cruzadas sangrentas, inquisições que praticavam a tortura, conquistadores que assassinavam em massa, missionários que destruiam culturas, resistência reforçada legalmente e até ao último momento possível a cada nova verdade científica ― são ainda mais impressionantes. E tudo isto para quê? Creio que se torna cada vez mais claro que a resposta é absolutamente para nada. Não há nenhuma razão para que acreditemos que existam quaisquer espécies de deuses e há muito boas razões para que acreditemos que não existem e nunca existiram. Foi tudo um gigantesco desperdício de tempo e de vida. Seria uma anedota de proporções cósmicas se não fosse tão trágico.

Porque é que as pessoas acreditam em Deus? Para a maior parte das pessoas a resposta é ainda uma qualquer versão do antigo Argumento do Desígnio. Olhamos em volta para a beleza e complexidade do mundo ― para o movimento aerodinâmico de uma asa de andorinha, para a delicadeza das flores e das borboletas que as fertilizam; por intermédio de um microscópio para a vida luxuriante existente em cada gota de água de um tanque; por intermédio de um telescópio para a copa de uma sequóia gigante. Reflectimos na complexidade electrónica e na perfeição óptica dos nossos olhos que vêem tudo isto. Se temos alguma imaginação, estas coisas conduzem-nos a um sentimento de temor e reverência. Além disso, não podemos deixar de nos impressionar com a semelhança óbvia dos órgãos vivos com os projectos cuidadosamente planeados dos engenheiros humanos. A expressão mais famosa deste argumento é a analogia do relojoeiro de William Paley, padre do século dezoito. Mesmo que não soubéssemos o que é um relógio, o carácter obviamente concebido dos seus dentes e molas e de como engrenam uns nos outros para um propósito, forçar-nos-ia a concluir «que o relógio teve de ter um autor: que teve de ter existido, nalguma altura, num lugar ou noutro, um artífice ou artífices, que o concebeu com o propósito a que o vemos agora responder; que compreendeu a sua construção e concebeu o seu uso.» Se isto é verdade de um relógio relativamente simples, não é muito mais verdade do olho, do ouvido, do rim, da articulação do cotovelo e do cérebro? Estas belas, complexas e intrincadas estruturas, que foram evidentemente construídas com um propósito, tiveram de ter o seu próprio autor, o seu próprio relojoeiro ― Deus.

Tal é o argumento de Paley, e é um argumento que praticamente todas as pessoas que reflectem e têm sensibilidade descobrem por elas próprias em certa altura da sua infância. Durante a maior parte da história deve ter parecido absolutamente convincente e de uma verdade auto-evidente. E contudo, como resultado de uma das mais espantosas revoluções intelectuais da história, sabemos agora que é errado ou pelo menos supérfluo. Sabemos agora que a ordem e a aparente intencionalidade do mundo vivo aconteceu por intermédio de um processo completamente diferente, um processo que funciona sem a necessidade de qualquer autor e que é uma consequência de leis físicas basicamente muito simples. Este é o processo de evolução por selecção natural, descoberto por Charles Darwin e, independentemente, por Alfred Russel Wallace.

O que têm em comum todos os objectos que parecem ter de ter tido um autor? A resposta é improbabilidade estatística. Se encontramos um seixo transparente a que o mar deu a forma de uma lente imperfeita, não concluímos que teve de ser concebido por um oculista: as leis da física por si sós são capazes de alcançar este resultado; não é muito improvável que tenha meramente «acontecido». Mas se encontramos uma lente composta trabalhada, cuidadosamente corrigida contra a aberração esférica e cromática, revestida contra o brilho e com «Carl Zeiss» gravado no rebordo, sabemos que não poderia ter acontecido meramente por acaso. Se pegarmos em todos os átomos de uma tal lente composta e os lançarmos juntos ao acaso sob a impulsionante influência das leis vulgares da física na natureza é teoricamente possível que, por puro acaso, os átomos se agrupem segundo o padrão da lente composta da Zeiss e até que os átomos em redor da orla se agrupem de modo a que o nome Carl Zeiss seja gravado. Mas o número de outras formas segundo as quais os átomos poderiam, com idêntica probabilidade, ter-se agrupado é tão extremamente, imensamente, incomensuravelmente elevado, que podemos pôr completamente de lado a hipótese do acaso. Como explicação o acaso está fora de questão.

A propósito, este argumento não é circular. Pode parecer circular porque, depois da ocorrência, podemos dizer que qualquer organização particular de átomos é muito improvável. Como já alguém disse, quando uma bola cai num determinado pedaço de relva no campo de golfo, seria loucura exclamar: «De todos os biliões de pedaços de relva em que a bola poderia ter caído, caiu efectivamente neste. Quão admiravelmente e miraculosamente improvável!» Claro que a falácia aqui é que a bola tinha de cair nalgum lado. Só podemos ficar admirados com a improbabilidade do acontecimento real se o determinarmos a priori: por exemplo, se uma pessoa de olhos vendados girasse sobre si no tee, acertasse na bola ao acaso e conseguisse um hole in one. Isso seria verdadeiramente espantoso, porque o destino alvo da bola tinha sido estabelecido previamente.

De todas as triliões de formas diferentes de juntar os átomos de um telescópio, apenas uma minoria poderia na realidade funcionar de forma útil. Apenas uma pequena minoria teria Carl Zeiss gravado ou, na verdade, quaisquer palavras reconhecíveis de qualquer linguagem humana. O mesmo é verdade para as partes de um relógio: de todos os biliões de modos possíveis de os juntar, apenas uma pequena minoria dirão as horas ou farão qualquer coisa útil. E, claro, o mesmo é verdade, a fortiori, para as partes dos corpos vivos. De todos os triliões de triliões de modos de juntar as partes de um corpo, apenas uma minoria infinitesimal viverão, procurarão comida, comerão e se reproduzirão. É verdade que há muitas formas diferentes de estar vivo ― pelo menos dez milhões de formas diferentes, se contarmos o número de espécies diferentes que estão actualmente vivas ― mas, por mais formas que possam existir de estar vivo, de certeza que há muito mais de estar morto!

Podemos com segurança concluir que os corpos vivos são biliões de vezes demasiado complicados ― demasiado estatisticamente improváveis ― para terem surgido por puro acaso. Como é que surgiram, então? A resposta é que o acaso entra na história, mas não um único e monolítico acto de acaso. Em vez disso, toda uma série de pequenos passos ocasionais, cada um suficientemente pequeno para ser um resultado credível do seu predecessor, ocorreram uns atrás dos outros em sequência. Estes pequenos passos do acaso são causados por mutações genéticas, mudanças fortuitas ― erros de facto ― no material genético. Originam mudanças na estrutura corporal existente. A maior parte dessas mudanças são perniciosas e levam à morte. Uma minoria revelam-se pequenas melhorias, que conduzem a um aumento da sobrevivência e da reprodução. Por este processo de selecção natural, as mudanças ao acaso que se revelam no fim de contas benéficas espalham-se pela espécie e tornam-se a norma. O cenário está agora montado para a próxima pequena mudança no processo evolutivo. Depois de, digamos, um milhar destas pequenas mudanças em série, cada mudança fornecendo a base para a próxima,  o resultado final tornou-se, por um processo de acumulação, demasiado complexo para ter surgido num único acto de acaso.

Por exemplo, é teoricamente possível que um olho se forme do nada, num único passo de acaso: digamos que a partir apenas da pele. É teoricamente possível no sentido em que poderíamos escrever uma receita com a forma de um grande número de mutações. Se todas estas mutações acontecessem simultaneamente, poderia mesmo surgir do nada um olho completo. Mas embora seja teoricamente possível, é na prática inconcebível. A quantidade de acaso que envolve é demasiada. A receita «correcta» envolve mudanças num enorme número de genes simultaneamente. A receita correcta é uma combinação particular de mudanças em triliões de combinações de acasos igualmente prováveis. Podemos certamente excluir uma tal miraculosa coincidência. Mas é perfeitamente plausível que o olho moderno se tenha formado a partir de algo que fosse quase igual ao olho moderno mas não exactamente igual: um olho ligeiramente menos elaborado. Pelo mesmo argumento, este olho ligeiramente menos elaborado formou-se a partir de um ainda menos elaborado, etc. Se assumirmos um número suficientemente grande de pequenas diferenças entre cada estádio evolutivo e o seu predecessor, somos capazes de derivar um olho completo, complexo, a funcionar, a partir apenas da pele. Quantos estádios intermédios podemos postular? Isso depende do tempo de que dispusermos. Houve tempo suficiente para os olhos evoluírem por pequenos passos a partir do nada?

Os fósseis dizem-nos que a vida evolui na Terra há mais de 3 000 milhões de anos. Para a mente humana é quase impossível apreender uma tal imensidão de tempo. Nós, naturalmente e felizmente, tendemos a ver a nossa própria expectativa de vida como razoavelmente longa, mas não podemos esperar viver nem sequer um século. Passaram 2 000 anos desde que Jesus viveu, tempo suficiente para esbater a distinção entre história e mito. Podemos imaginar um milhão de períodos desses colocados lado a lado? Suponhamos que queremos escrever toda a história num longo e único rolo. Se amontoássemos toda a história da Era Comum num metro de rolo, que tamanho teria a parte do rolo da Era pré-Comum até ao começo da evolução? A resposta é que a parte do rolo da Era pré-Comum estender-se-ia de Milão a Moscovo. Pensemos nas implicações disto para a quantidade de mudanças evolutivas que podem ser incluídas. Todos as raças de cães domésticos ― pequineses, poodles, spaniels, São Bernardos e chihuahuas ― provieram de lobos num espaço de tempo medido em centenas ou no máximo milhares de anos: não mais que dois metros ao longo da estrada de Milão para Moscovo. Pensemos na quantidade de mudança envolvida na passagem de lobo a pequinês; agora multipliquemos essa quantidade de mudança por um milhão. Quando olhamos para isto dessa maneira, torna-se fácil acreditar que um olho pode ter evoluído por pequenos passos a partir do nada.

É preciso ainda convencermo-nos de que cada um dos mediadores na rota da evolução, digamos da mera pele para um olho moderno, teria sido favorecido pela selecção natural; teria sido um progresso em relação ao seu predecessor na sequência ou pelo menos teria sobrevivido. Não serviria de nada provarmos a nós próprios que existe teoricamente uma cadeia de mediadores quase perceptivelmente diferentes levando a um olho se muitos desses mediadores tivessem morrido. Afirma-se às vezes que as partes de um olho têm de estar todas reunidas ou o olho não funcionará. Metade de um olho, diz o argumento, não é melhor que nenhum olho. Não podemos voar com metade de uma asa; não podemos ouvir com metade de um ouvido. Portanto, não pode ter existido uma série de passos intermédios conduzindo ao olho, asa ou ouvido modernos.

Este tipo de argumento é tão ingénuo que podemos apenas perguntar-nos quais os motivos subconscientes para acreditar nele. É obviamente falso que meio olho seja inútil. As pessoas que sofrem de cataratas a quem removeram cirurgicamente os cristalinos não podem ver muito bem sem óculos, mas ainda assim estão muito melhor do que as pessoas que não têm quaisquer olhos. Sem o cristalino não é possível focar uma imagem detalhada, mas é possível evitar chocar com obstáculos e seria possível detectar a sombra vaga de um predador.

Quanto ao argumento segundo o qual não podemos voar com apenas metade de uma asa, é refutado por um grande número de animais planantes bem sucedidos, incluindo mamíferos de géneros muito diferentes, lagartos, rãs, cobras e chocos. Muitos géneros diferentes de animais que vivem nas árvores têm abas de pele entre as suas articulações que são de facto asas fraccionadas. Se cairmos de uma árvore, qualquer aba de pele ou alisamento do corpo que aumente a nossa área de superfície pode salvar-nos a vida. E, por muito pequenas ou grandes que as nossas abas possam ser, haverá sempre uma altura crítica tal que, se cairmos de uma árvore dessa altura, a nossa vida poderia ter sido salva por precisamente um pouco mais de área de superfície. Portanto, quando os nossos descendentes desenvolverem essa área de superfície extra, as suas vidas serão salvas precisamente por um pouco mais, mesmo que caiam de árvores de uma altura ligeiramente maior. E assim sucessivamente, por passos imperceptivelmente graduados até que, centenas de gerações depois, chegamos a asas completas.

Os olhos e as asas não podem surgir num passo único. Isso seria como ter a sorte quase infinita de acertar na combinação que abre a caixa-forte de um grande banco. Mas se girarmos os discos da fechadura ao acaso e, de cada vez que nos aproximarmos um pouco mais do número da sorte, a porta da caixa-forte rangendo abrir outra ranhura, em breve teremos a porta aberta! Na essência, é esse o segredo de como a evolução por selecção natural realiza o que pareceu impossível. Coisas que não podem plausivelmente ser derivadas de predecessores muito diferentes podem plausivelmente ser derivados de predecessores apenas ligeiramente diferentes. Contanto que haja uma série suficientemente longa de predecessores ligeiramente diferentes, podemos derivar qualquer coisa de qualquer outra coisa.

Portanto, a evolução é teoricamente capaz de fazer o trabalho que antigamente parecia ser uma prerrogativa de Deus. Mas há alguma prova de que a evolução tenha de facto acontecido? A resposta é sim; a prova é esmagadora. Milhões de fósseis encontram-se exactamente nos lugares e exactamente à profundidade a que devemos esperar que estejam se a evolução aconteceu. Nem um único fóssil foi alguma vez encontrado num local em que a teoria da evolução não previsse que estivesse, embora isto pudesse ter acontecido com muita facilidade: um fóssil de um mamífero tão antigo que os peixes ainda não existissem, por exemplo, seria suficiente para refutar a teoria da evolução.

Os padrões de distribuição dos animais e das plantas pelos continentes e ilhas do mundo são exactamente os que seria de esperar que fossem se eles tivessem evoluído de antepassados comuns por graus lentos e graduais. Os padrões de semelhança entre animais e plantas são exactamente o que esperaríamos se alguns fossem entre si primos chegados, e outros mais distantes. O facto do código genético ser o mesmo em todas as criaturas vivas sugere esmagadoramente que todas descendem de um único antepassado. As provas a favor da evolução são tão conclusivas que a única forma de salvar a teoria da criação é assumir que Deus deliberadamente colocou enormes quantidades de provas para fazer com que parecesse que a evolução ocorreu. Por outras palavras, os fósseis, a distribuição geográfica dos animais e tudo isso, são todos um gigantesco conto do vigário. Alguém quer adorar um Deus capaz de tal embuste? É certamente muito mais respeitoso, assim como mais sensato do ponto de vista científico, tomar as provas pelo seu valor facial. Todas as criaturas vivas são primas umas das outras, descendem de um antepassado remoto que viveu há mais do que 3000 milhões de anos.

Por conseguinte, o Argumento do Desígnio foi destruído como razão para acreditar em Deus. Existem outros argumentos? Algumas pessoas acreditam em Deus por causa do que sentem ser uma revelação interior. Tais revelações nem sempre são edificantes mas para a pessoa em questão são sem dúvida sentidas como reais. Muitos habitantes de hospícios têm uma fé inabalável em que são Napoleão ou, na verdade, o próprio Deus. Não há dúvida do poder de tais convicções para quem acredita nelas, mas isto não é razão para que o resto de nós acredite. Na verdade, uma vez que essas crenças são mutuamente contraditórias, não podemos acreditar nelas.

É preciso dizer um pouco mais. A evolução por selecção natural explica muitas coisas, mas não poderia ter começado do nada. Não poderia ter começado sem que houvesse algum género de reprodução e de hereditariedade. A hereditariedade moderna baseia-se no código de ADN, que é ele mesmo demasiado complicado para ter surgido espontaneamente por um único acto de acaso. Isto parece significar que teve de existir algum sistema hereditário anterior, agora desaparecido, que era suficientemente simples para ter surgido por acaso e pelas leis da química e que forneceu o meio no qual uma forma primitiva de selecção natural cumulativa pôde começar. O ADN foi um produto posterior desta selecção primitiva e cumulativa. Antes deste género original de selecção natural, houve um período em que foram construídos compostos químicos complexos a partir de compostos químicos mais simples e antes desse um período em que os elementos químicos foram feitos a partir de elementos mais simples, seguindo leis físicas bem compreendidas. Antes disso, em última instância foi tudo construído de hidrogénio puro no imediato seguimento do big bang que iniciou o universo.

Há a tentação de defender que, embora Deus possa não ser necessário para explicar a evolução da ordem complexa uma vez que o universo, com as suas leis fundamentais da física, tenha começado, precisamos de um Deus para explicar a origem de todas as coisas. Esta ideia não deixa Deus com muito que fazer: somente iniciar o big bang, e em seguida sentar-se e esperar que tudo aconteça. O físico-químico Peter Atkins, no seu livro maravilhosamente escrito The Creation, postula um Deus preguiçoso que se esforçou por fazer tão pouco quanto possível para iniciar tudo. Atkins explica como cada passo na história do universo seguiu, por simples lei física, o seu predecessor. Reduziu assim a quantidade de trabalho que o criador preguiçoso precisaria de fazer e no fim de contas concluiu que de facto não precisaria de fazer nada!

Os detalhes da fase inicial do universo pertencem ao reino da física e eu sou biólogo, mais interessado nas últimas fases da evolução em complexidade. Para mim, o ponto importante é que, mesmo se o físico precisa de postular um mínimo irredutível que teve de estar presente no começo, para que o universo começasse, esse mínimo irredutível é certamente extremamente simples. Por definição, as explicações construídas sobre premissas simples são mais plausíveis e mais satisfatórias do que as explicações que têm de postular começos complexos e estatisticamente improváveis. E dificilmente poderemos encontrar algo mais complexo do que um Deus Todo-Poderoso!

Richard Dawkins é Professor em Oxford de Compreensão Pública da Ciência. É o autor de O Relojoeiro Cego (no qual este artigo se baseia em parte) e A Escalada do Monte Improvável. É Editor Principal do Free Inquiry.
Tradução de Álvaro Nunes

sexta-feira, julho 31, 2009

Tamiflu causa náuseas e pesadelos em crianças, aponta pesquisa

Remédio contra a gripe A provoca efeitos colaterais, segundo jornal britânico

Mais da metade das crianças que tomam o remédio utilizado no combate à gripe A, o Tamiflu, sofrem efeitos colaterais como náusea e pesadelos, aponta uma pesquisa da Agência britânica de Proteção à Saúde, publicada pelo site do jornal Times.

De acordo com o estudo, que contemplou crianças de três escolas de Londres e uma do sudoeste da Inglaterra mostraram que entre 51% e 53% tiveram um ou mais efeitos colaterais ao utilizar o medicamento, que é oferecido a todos que apresentam sintomas da gripe A na Inglaterra.

Um total de 103 crianças fizeram parte do estudo, em que 85 receberam a prescrição do Tamiflu como uma medida de precaução após um dos alunos ter sido diagnosticado com a nova gripe. Destes, 45 sentiram um ou mais efeitos colaterias. O mais comum foi a náusea (29%), seguido de dor no estômago ou cólicas (20%) e problemas para dormir (12%). Quase um em cada cinco tiveram efeitos como dificuldade de pensar claramente, pesadelos e "comportamento estranho", de acordo com a pesquisa.

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