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sexta-feira, abril 16, 2010

Energia nuclear e dependência tecnológica

Como pano de fundo das pressões dos EUA para impor sanções que impeçam o Irã de desenvolver seu programa nuclear está o veto imperial visando intimidar todos os países que dão passos concretos para romper a dependência tecnológica. Esta dependência funciona como um vergonhoso muro que bloqueia o desenvolvimento soberano de inúmeros países emergentes, mas com desdobramentos planetários. A pressão contra o Irã também atinge o Brasil. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida


A realização, nesta semana, da Cúpula Internacional para a Segurança Nuclear , supostamente para afastar o perigo de um confrontação nuclear mundial, reveste-se de farsa discursiva e prática. A participação de Lula neste evento convocado pelos EUA foi interessante. Como de hábito, Lula usou uma imagem simples e fortemente comunicativa para explicar o que anda ocorrendo nesta área nuclear, mesmo quando grandes potências assinam acordos e mais acordos de desarmamento, há mais de 40 anos, teoricamente de redução de ogivas. De vez em quando, disse Lula, eu jogo fora remédios velhos e vencidos....

Não há, rigorosamente, qualquer esforço sincero e comprovado de que as grandes potências atômicas estariam a zelar pela paz mundial, que não existe, e para afastar o perigo de um confrontação nuclear de conseqüências imprevisíveis, até o momento. Assim, é preciso extrair o que de fato está em jogo nestes grandes encontros internacionais. Tal como aquela Conferência do Clima de Copenhaguen, no final do ano passado, foi um grande fiasco, não resultando em qualquer acordo prático que levasse as potências poluidoras a deixar de emporcalhar o mundo, esta Cúpula da Segurança Nuclear também não trouxe qualquer tranqüilidade ou segurança ao mundo. Pudera, o próprio anfitrião, o presidente Barak Obama, acaba de autorizar o Congresso dos EUA a ampliar o orçamento da indústria bélica. E vale lembrar sempre: o orçamento militar dos EUA, sozinho, supera o orçamento de todos os demais países do mundo, somados. Isto mesmo, somados. Foi o que destacou Vladimir Puttin ao ser indagado por dileto repórter da BBC se os acordos militares entre Rússia e Venezuela não causariam preocupação em Washington....

TNP tem dois pesos e duas medidas


Assim sendo, além de revelar o quão hipócrita é o pronunciamento de Barak Obama indicando “preocupação” pela Venezuela estar montando, pela primeira vez em sua história, uma legítima capacidade de defesa que lhe permita não ser assaltada em suas imensas riquezas energéticas, como ocorre hoje com o Iraque e o Afeganistão - não há paranóia venezuelana nisto - é preciso entender que reuniões de cúpula como esta estão dirigidas, entre outros objetivos, a manter o imenso abismo existente entre o seleto grupo de países nucleares e os demais. Mas, com medidas práticas concretas, aí sim, dirigidas a desestimular, intimidar ou a punir, seja com sanções econômicas ou militares, aqueles países que ousem pretender uma independência tecnológica para alcançar o domínio da energia nuclear. E esses países, como é o caso Irã, são transformados em ameaça humanidade. Israel possui ogivas nucleares, mas , para demonstrar o grau de hipocrisia que preside tais reuniões de cúpulas, sequer é interpelado, advertido, admoestado. Todas as hipóteses de sanções são dirigidas exclusivamente ao Irã.

É correta a posição do Brasil ao reivindicar que a comunidade internacional , sobretudo os possuidores do porrete nuclear nas mãos, aprenda a dialogar, a negociar. Ou será admissível adotar-se uma vez mais a opção iraquiana. Inventa-se qualquer mentira e despacha-se para o Irã a terrível máquina de morte dos EUA, já que estão em dificuldades para recuperar algum dinamismo da sua economia.

Mas, ao defender que o Irã tenha direito de desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos, o Brasil toca numa complexa e intrincada caixa de marimbondos. E nisto conta com a compreensão da China que, obviamente, percebe que as ameaças contra o Irã são destinadas a afetar um dos parceiros mais importante do gigante asiático em seu estupendo crescimento econômico enquanto os EUA patinam na recessão.

Turbinas nucleares sequestradas

Vale lembrar que o Brasil já foi objeto de pressões e sabotagens muito similares às que sofre o Irã hoje. Durante a Era Vargas, que os neoliberais quiseram e ainda querem demolir, o Brasil comprou turbinas atômicas da Alemanha. Foi em 1952. Era parte da estratégia do Almirante Álvaro Alberto, idealizador do Programa Nuclear Brasileiro, para que o país tivesse condições de alcançar desenvolvimento tecnológico soberano nesta área estratégica. As pressões chegaram ao ponto extremo. As turbinas, prontas para serem embarcadas no Porto de Hamburgo para o Brasil, foram seqüestradas por um comando militar da OTAN, sob ordens dos EUA. Também sabemos como foram intensas as pressões norte-americanas contra o governo Geisel para que não firmasse o Acordo Nuclear com a Alemanha na década de 70. Agora, o governo iraniano denuncia que um de seus mais insignes cientistas nucleares foi seqüestrado a mando dos EUA. Definitivamente, este mundo para é para meigos....

O tema não é segurança mundial mas segurança dos países nucleares de que não perderão a condição de domínio exclusivo destas tecnologias e, como ela, o poder de impor dependência tecnológica ao mundo. Que não surjam outros concorrentes. Foi o que disse certa o sinistro Henry Kissinger, ex-secretário de estado dos EUA, referindo-se ao Brasil: “não permitiremos que surja um novo Japão abaixo da linha do Equador”. A discussão não é nada nova, apenas vem revestida com ingredientes atuais como a difusa ameaça terrorista, agitada como justificativa para a “comunidade internacional” puna os países rebeldes.

Romper a vassalagem tecnológica
Foi também na Era Vargas, quando da criação da Petrobrás, que o Brasil sofreu uma enorme pressão para que pretendesse ter independência na área da energia do petróleo. Até anúncios foram publicados nos jornais brasileiros pelas transnacionais para que decretar: “está provado que no Brasil não há petróleo” e , portanto, seria uma loucura criar a Petrobrás. Um dos jornais que publicou estas orientações imperiais, o Estado de São Paulo, hoje está aí a editar posições contra a revitalização da Telebrás, contra a nacionalização dos fertilizantes, ou simplesmente pedindo que a TV Brasil seja extinta, apesar de sua existência estar prevista na Constituição.

Além do caso do petróleo, vale citar também o exemplo da indústria aeronáutica. O desenvolvimento de uma indústria aeronáutica de porte pelo Brasil parecia ser o resultado lógico e natural da histórica conquista tecnológica iniciada por Alberto Santos Dumont. No entanto, após a criação da Embraer, a mentalidade presidida pela vassalagem tecnológica e que acreditava que o Brasil não podia mais ou que não tinha o direito a uma posição soberana no cenário aeronáutico internacional, optou pela privatização da estatal. Recentemente, a Venezuela apresentou proposta de compra de 150 aviões Tucanos da Embraer. Quando a transação estava por ser concluída, a dependência tecnológica se impôs: os EUA vetaram a venda, alegando que os Tucanos contam com tecnologia norte-americana e que não poderiam ser vendidos à Venezuela de Hugo Chávez.. Aliás, era um simples computador de bordo que poderia perfeitamente ser desenvolvido aqui mesmo se o CPQD não tivesse sido demolido no vendaval da privataria. Resultado: a Venezuela comprou aviões similares da China e a Embraer, sem encomendas, demitiu 4800 trabalhadores.

Uma nova ordem internacional


A dependência tecnológica que querem impor ao Irã desdobra-se como pressão também contra o Brasil, possuidor de uma das mais eficientes e cobiçadas tecnologias de centrifugas nucleares. A pressão alinhavada na Cúpula da Segurança Nuclear destina-se a pressionar também os países emergentes a firmar o aditivo ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, pelo qual, a Agência Internacional de Energia Atômica poderia fazer “inspeções”, sem aviso, a quaisquer instalações onde haja desenvolvimento de experiências de natureza nuclear. Faz bem a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Brasil em alertar para os riscos que estão embutidos por trás destas grandiloqüentes proclamações sobre segurança nuclear.

Acerta o presidente Lula quando afirma que Brasil e China estão na obrigação de lutar por uma nova ordem internacional. Acertam os países do IBAS quando firmam acordo para fabricação de satélite próprio superando grave vulnerabilidade tecnológica que marca o setor. Acertam os países do BRIC quando marcam presença por outras áreas do planeta, por exemplo, por meio dos acordos para o desenvolvimento nuclear que Rússia está propondo implementar com Venezuela e Argentina. Erra o jornal Correio Brasiliense, incapaz de compreender a transcendência histórica da reunião realizada em Brasília, desinformando sobre o conteúdo e magnitude dos acordos estatais firmados, preferindo dar destaque inconcebível aos problemas que o encontro causou ao trânsito e trazendo como manchete um improvável desfecho para a paroquial crise da corrupção no Distrito Federal, que traumatizou o próprio diário capitalino, tão beneficiado pela panetônica publicidade do Palácio do Buriti. Erra também o Green Peace em seu protesto estudantil - certamente apoiado por instituições alimentadas pela indústria petroleira e da Realeza Financeira Britânica - sem perceber que no Itamaraty estavam reunidos pelo menos dois dos países que mais se esforçam e contribuem para um novo padrão energético internacional mais limpo. O Brasil, com a biomassa e a hidroeletricidade, e a China, país que líder nos investimentos e na produção de equipamentos para a energia solar.

Ou seja, não é difícil usar o perigo real de uma conflagração nuclear para esconder uma série de iniciativas e de arranjos visando manter o mundo marcado pela dependência tecnológica que prejudica a imensa maioria dos povos. Sobretudo, quando certa mídia não quer revelá-los.


Fonte: Carta Maior

terça-feira, março 23, 2010

Jô Soares: O golpe do falso guru

Para recordar....

O golpe do falso guru

O “profeta” Omar Khayam, que diz ter o dom da cura, já foi condenado pela Justiça em vários Estados

A barba grisalha, as vestes de monge e o cajado compõem a aparência mística. Acrescente-se a ela a oratória caudalosa de um bom pregador. Assim Omar Khayam atraiu seguidores por todo o país. Seus inflamados sermões renderam-lhe fama e recursos para criar uma seita religiosa no interior de Goiás. Ganhou audiência. Nos últimos 15 dias, ao apresentar-se por duas vezes no programa de Jô Soares, na TV Globo, provocou uma avalanche de e-mails, cartas e telefonemas dirigidos à emissora. O mago quis aproveitar o sucesso. Deu entrevistas a órgãos semanais de informação. Atraiu famosos, como os cantores Ronnie Von e Baby do Brasil, para consultas particulares. Mas a notoriedade foi-lhe fatal. Omar Khayam não existe. É uma invenção do pernambucano Alexandre dos Santos Selva Neto, detentor de longa ficha policial e várias condenações na Justiça. Selva-Khayam encarna, na verdade, o Artigo 171 do Código Penal. Trata-se de um estelionatário.
Ao surgir na TV, duas semanas atrás, parecia convincente. Dizia ter “99 anos, 7 meses e 26 dias”. Assegurou que, “somadas as vidas passadas” em sete encarnações, sua idade “absoluta” alcançaria 5.600 anos. Contava integrar 200 sociedades secretas, dominar 33 idiomas e 72 dialetos e possuir 107 títulos de doutor honoris causa, recebidos de universidades brasileiras e do Exterior. Previa o fim do mundo para daqui a 50 anos e se definia como um “eremita que deixou a reclusão voluntária no Planalto Central para sair pelo mundo em pregação pela paz”. 
 
No Recife, toda essa conversa causou indignação em dois delegados aposentados: Geraldo Farias, de 71 anos, e Jorge Passo de Souza, de 70. Eles denunciaram a farsa. Souza também foi entrevistado por Jô e revelou a folha corrida policial do falso beato. Os dois delegados cruzaram com Selva-Khayam em 1958. Ele foi preso e condenado a dois anos e meio de prisão por arrombamento e furto de uma loja na capital de Pernambuco. Fugiu da cidade, voltou e foi novamente detido, acusado de prática de curandeirismo. Ao contrário da imagem de bom místico, Selva-Khayam despontou nas folhas policiais como um homem violento, cercado de encrencas. Em 1961, no Recife, foi condenado por lesão corporal. Em 1965, outra condenação: como falsário, em Niterói, no Rio de Janeiro. Ficou preso três anos. Em 1987, em São Paulo, ganhou sentença de oito meses de detenção por praticar curandeirismo. Os crimes estão prescritos. Acumula, ainda, uma acusação de estelionato em João Pessoa, na Paraíba, e responde a inquérito policial em Goiânia por consumo de drogas. 
 
“Quem foi mago, sábio, e nunca foi preso?”, perguntou Selva-Khayam, na quinta-feira à noite, em entrevista por telefone. “Qual é o meu crime? Ter curado pessoas de câncer, de Aids, de Alzheimer? A cura é um dom.” No Recife, o delegado aposentado Farias rebate: “Ele é sarcástico, um espertalhão”. 
 
Com a identidade revelada, o falso guru não pôde proferir palestra no Parlatino, em São Paulo, quarta-feira 10. A apresentação foi cancelada, para indignação de parte do público (cada ingresso havia sido vendido por R$ 125). O palestrante abandonou às pressas um hotel cinco-estrelas na capital, onde vinha atendendo uma romaria de admiradores. Recolheu-se ao sítio perto de Goiânia, levando consigo as “doações” em dinheiro recebidas dos seguidores paulistas. Não fornece o endereço de sua Ordem Gnóstico-Taoísta do Brasil. Lá diz plantar para comer e recebe “ajuda para viver”. Divide 12 quartos com “discípulos e discípulas, plantas, pássaros e mais de 300 mil livros”. No exílio goiano, pretende calar-se, mas apenas por algum tempo. “Não deixo o lodo acumular nas sandálias.”





O público pediu bis
A entrevista foi sugerida a Jô por um assessor de Khayam

O apresentador não se arrepende das duas aparições do beato em seu programa. “As pessoas pediram para ele voltar”, afirma.
Época: Você acreditou em Khayam?
Jô Soares: Claro que não (rindo), mas qualquer entrevista com um personagem tão exótico e fascinante quanto Khayam nos interessa. Não dá para negar que ele é fascinante. E o entrevistei de maneira asséptica.
Época: Está arrependido de ter repetido a dose?
Jô: De jeito nenhum. Ele é tão fascinante que está rendendo matéria até hoje. Se não fosse uma figura interessante, não teria havido tanta repercussão. Achei engraçado.
Época: Como os telespectadores reagiram às entrevistas?
Jô: Os telefones da produção ficaram congestionados de tanta gente pedindo para ele voltar. O e-mail e o fax entupiram. Alguns o queriam de novo pelo pitoresco. Outros porque desejavam questionar a veracidade dele.
Época: Como sua equipe soube que ele era um farsante?
Jô: Recebemos a ficha policial por fax. Lembro que alguém da produção disse: “É bom a gente dar o desmentido”. Eu respondi: “Não! Vamos é trazer o delegado do Recife!” O delegado José Passo de Souza só não foi entrevistado antes porque tinha se operado de apendicite.
Época: Entrevistas polêmicas, como a do falso guru, ajudam o programa? São uma alavanca de audiência?
Jô: Entrevistas polêmicas rendem bem. Como a de Khayam. O importante é que não se leve a sério uma coisa dessas. E nós não levamos. Tanto que interrompi alguns trechos em que ele falava em cura. “Isso não, Khayam, isso é uma coisa muito séria e tem gente assistindo em casa.” Ele próprio concordou. Aliás, ele não reclama de nada... (risos)



Marceu Vieira, do Rio, Maria Clarice Dias, de Brasília, e Sérgio Adeodato, do Recife


Fonte: Época

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Assim é se lhe parece

Atualizado em 25 de fevereiro de 2010 às 02:06 | Publicado em 25 de fevereiro de 2010 às 01:19
por Luiz Carlos Azenha

Jornalismo não é Ciência exata. Jornais erram. Jornalistas erram. Erros admitidos e reparados, tocamos em frente. Às vezes o erro tem consequências gravíssimas, como no caso paradigmático da Escola Base. O famoso "espírito de manada" muitas vezes contribui para que pecados originais de pequena dimensão se agravem. O espírito de manada funciona assim: por decisão superior ou por interesse próprio, um jornalista decide "repercutir" uma notícia que dá como fato, sem fazer a confirmação independente daquela informação. Corre o risco de repercutir o erro. De ampliar o erro. De reproduzir a premissa falsa. Já vivi essa situação, "repercutindo" reportagens da revista "Veja", na TV Globo: é como se você validasse um bilhete premiado sem ter tido a oportunidade de confirmar antes a premiação.

Assim se deram algumas das grandes "crises" que o Brasil enfrentou desde que o governo Lula se instalou no poder, como o "caos aéreo", a "epidemia de febre amarela" e a "gripe suína". Má fé, incapacidade técnica, preguiça, preconceito ideológico e a crença de que a mídia deve ser "de oposição" a qualquer custo, mesmo que ao fazer isso atropele a verdade, levaram a mídia corporativa a exagerar, distorcer ou repercutir acriticamente informações que, mais tarde, se demonstrou serem exageradas ou simplesmente fictícias.

No episódio da febre amarela, por exemplo, o texto-símbolo em minha opinião foi o "Alerta Amarelo", de Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, em que a jornalista incentivou todos os brasileiros a correr para o posto de saúde e tomar a vacina, independentemente das contra-indicações existentes.

Ela escreveu:

Bem, o Orçamento, os impostos e os cortes de gastos estão a mil por hora em Brasília neste pós-CPMF, com ministros do Executivo, todo o Legislativo e o Judiciário em pânico diante da tesoura da área econômica do governo. O fantasma da febre amarela, portanto, paira sobre o país como um alerta num momento crucial, para que a saúde e a educação sejam preservadas antes de tudo o mais. Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano --e nos seguintes.

O alerta da colunista foi apenas um texto irresponsável no conjunto da obra do mau jornalismo. A vacinação disparou. Gente que não precisava ou não podia ter tomado a vacina, tomou. Houve pelo menos um caso de morte que poderia ter sido evitada. E a febre amarela? O número de casos foi inferior ao registrado em anos anteriores, quando não houve o mesmo alarde.

No "caos aéreo", um conjunto de acontecimentos distintos e vagamente relacionados foi utilizado para provocar a demissão do ministro da Defesa, Waldir Pires, substituído  por Nelson Jobim. Problemas reais de infraestrutura e de mau gerenciamento foram reunidos sob a tarja do "caos aéreo" à greve de controladores de vôo e ao acidente com o avião da TAM em Congonhas. O acidente, uma fatalidade causada por erro humano, foi atribuído ao presidente da República por um colunista da Folha de S. Paulo. Lula foi acusado, na primeira página, pelo homicidio de 200 passageiros. O psicanalista Francisco Daudt escreveu:

Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS”. O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime.

No caso da gripe suína, uma epidemia real foi de tal forma "espetacularizada" que colocou autoridades públicas sob pressão para tomar medidas que, em retrospectiva, sabemos agora terem sido exageradas -- especialmente o adiamento do início das aulas em vários estados brasileiros. Na Folha de S. Paulo, o filósofo Hélio Schwartsman escreveu:

A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.

Só posso especular sobre os motivos que levaram ao surgimento desse novo jornalismo, à brasileira: decadência da importância relativa dos jornais como formadores de opinião; denuncismo manchetista, como forma de enfrentar a competição com o infotainment; briga por um público mobilizado por outras formas e meios de entretenimento e informação (TV a cabo, DVDs, internet, celulares); demissão dos jornalistas mais experientes das redações e a centralização do poder nos aquários dos chefes; estridência de quem luta para evitar ou mascarar sua própria irrelevância; compromisso ideológico dos donos da mídia com o projeto político e econômico do PSDB/DEM.

Mas o que mais me preocupa é um fenômeno paralelo a esse, que diz respeito exclusivamente ao campo da informação, já que qualquer um é livre para dizer as besteiras que quiser nas colunas de opinião: uma certa "flexibilização" das regras do que deve ou não ser publicado, uma tentativa de legitimar novos critérios que afastam ainda mais o jornalismo da verdade factual.

Um exemplo disso foi o texto publicado na revista Veja, de autoria do repórter Márcio Aith, na famosa denúncia das contas (falsas, soubemos depois) de autoridades do governo Lula no Exterior. Na ocasião, Aith escreveu:

Por todos os meios legais, VEJA tentou confirmar a veracidade do material. Submetido a uma perícia contratada pela revista, o material apresentou inúmeras inconsistências, mas nenhuma suficientemente forte para eliminar completamente a possibilidade de os papéis conterem dados verídicos.


Antes, um repórter se esforçava para provar o conteúdo de um documento, antes de publicá-lo. Caso contrário, a reportagem ia para a gaveta ou o lixo.

Agora, pelo critério enunciado por Aith, você publica se não conseguir provar que aquele conteúdo é falso. Não parece, mas isso representa uma enormidade, já que abre as portas para publicar qualquer coisa.
É como se, no Direito, o ônus da prova fosse transferido para o acusado. Preso, teria de desprovar as acusações que o levaram à cadeia.

Isso abre espaço para, por exemplo, na véspera de uma eleição importante, você publicar qualquer denúncia, de qualquer origem, desde que não tenha conseguido desprovar a autenticidade de um documento. Falsificadores, mãos à obra: seu trabalho pode sair na capa de um jornal ou numa revista de circulação nacional. Quem sabe no Jornal Nacional.

Sim, porque mais adiante, depois dos episódios relativos ao chamado "caos aéreo", o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, chegou a enunciar uma teoria geral desse jornalismo frouxo, no famoso "testando hipóteses".

Em artigo publicado no jornal O Globo, em defesa da cobertura que os jornais fizeram do acidente da TAM, Kamel argumentou:

Na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se portou como devia. Não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim.

O teste de hipóteses de Kamel é uma espécie de carta branca para a especulação em busca da verdade factual. Como bom mistificador, Kamel inclui um "honestamente" ali na frase: nós, leitores, devemos acreditar piamente na honestidade dos jornais, tanto quanto acreditamos em Deus ou no ataque do Corinthians. É um convite à especulação, desde que precedido pela confissão de que, sim, estamos procurando a verdade factual.

Aith e Kamel, na prática, pregam o afrouxamento dos critérios tradicionais do jornalismo e abrem espaço ainda maior para os assassinatos de caráter, o jornalismo de dossiê e outras práticas que afastam nossa profissão do ideal de serviço público e a tornam ainda mais sujeita a ser usada como ferramenta em disputas políticas e sobretudo econômicas (como o notório comprometimento de setores da mídia com os interesses do banqueiro Daniel Dantas didaticamente expôs).

Mais recentemente, no episódio da publicação de uma ficha policial falsa da ministra Dilma Rousseff, a Folha de S. Paulo parece ter endossado esses novos critérios.

Fez isso, curiosamente, em uma reportagem em que admitia ter errado.


No texto, intitulado Autenticidad
e de ficha de Dilma não é provada, escreveu o jornal:
O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o "arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada -- bem como não pode ser descartada.

Nesse caso, a Folha criou uma nova categoria para a notícia. Temos as notícias autênticas. As fraudes. E as notícias que frequentam uma espécie de limbo, que merecem ou não credibilidade, de acordo com o gosto do freguês. A essa categoria de notícias pertence a ficha policial da ministra Dilma, cuja autenticidade "não pode ser assegurada -- bem como não pode ser descartada".

No mesmo texto, a Folha cuidou de suscitar dúvidas no leitor sobre sua própria admissão de erro, no parágrafo final:

Pesquisadores acadêmicos, opositores da ditadura e ex-agentes de segurança, se dividem. Há quem identifique indícios de fraude e quem aponte sinais de autenticidade da ficha. Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados.

Ou seja, a ficha falsa da Dilma que a Folha não encontrou nos arquivos oficiais pode estar por aí, em algum "arquivo privado", talvez o mesmo "arquivo privado" que "produziu" a ficha e a remeteu por e-mail ao jornal.
Nesse conjunto de critérios que relacionei acima cabe a publicação de qualquer coisa: dossiês até que sejam autenticados, dossiês cujo conteúdo a gente não consegue provar, nem desprovar; dossiês que a gente acredite, honestamente, serem verdadeiros. O novo jornalismo nos pede licença para mentir, distorcer, omitir, descontextualizar, exagerar, especular, espalhar boatos, lendas e fantasias.

É a vitória da verossimilhança sobre a verdade factual. Assim é se lhe parece.

domingo, agosto 09, 2009

TAMIFLU: Donald H. Rumsfeld Named Chairman of Gilead Sciences

Donald H. Rumsfeld Named Chairman of Gilead Sciences

Foster City, CA -- January 3, 1997

Gilead Sciences Inc. (Nasdaq: GILD) today announced that board member Donald H. Rumsfeld will assume the position of Chairman, effective immediately. Mr. Rumsfeld succeeds Michael L. Riordan, M.D., who founded Gilead in 1987 and has served as Chairman since 1993. Dr. Riordan will continue to serve as a director on the board.

"Gilead is fortunate to have had Don Rumsfeld as a stalwart board member since the company's earliest days, and we are very pleased that he has accepted the Chairmanship," Dr. Riordan said. "He has played an important role in helping to build and steer the company. His broad experience in leadership positions in both industry and government will serve us well as Gilead continues to build its commercial presence."

"In my years with Gilead, I have witnessed the evolution of one of the industry's premier biotechnology companies," Mr. Rumsfeld said. "Michael Riordan's founding vision and enormous accomplishments are evident in the VISTIDE® product approval, deep pipeline and talented team that will continue to move Gilead to develop novel treatments for viral diseases."

Mr. Rumsfeld, who joined Gilead as a director in 1988, is currently in private business and is distinguished for his accomplishments in both industry and government. Mr. Rumsfeld served as chief executive officer of G.D. Searle, a worldwide pharmaceutical company, from 1977 to 1985. During this time, his stewardship of Searle earned him awards as the Outstanding Chief Executive Officer in the pharmaceutical industry in 1980 and 1981. He also served as chairman and chief executive of General Instrument Corporation, a diversified electronics company and world leader in broadband and all digital high definition television technology.

A graduate of Princeton University, Mr. Rumsfeld has served in numerous positions of public service, including four terms in the U.S. Congress, U.S. Ambassador to NATO, White House Chief of Staff and as the 13th Secretary of Defense. In 1977, Mr. Rumsfeld was awarded the nation's highest civilian award, the Presidential Medal of Freedom.

In addition to Gilead, Mr. Rumsfeld presently serves as an advisor to several companies and as a member of the board of directors of ABB AB; Gulfstream Aerospace Corp.; Kellogg; Metricom, Inc.; Sears, Roebuck and Co. and Tribune Company. Mr. Rumsfeld's current civic activities include service on the board of trustees of the Eisenhower Exchange Fellowship, Freedom House and the RAND Corporation.

Dr. Riordan will continue to assist the company with strategic direction through his involvement on the board of directors. Since founding the company in 1987, Riordan has overseen Gilead's evolution to a leading biotechnology company with its first approved product and a diversified pipeline of antiviral therapies.

"Michael Riordan's vision and leadership have guided Gilead from a start-up to a commercial company, and we are pleased to rely on his continued counsel as an active board member," John C. Martin, Ph.D., President and Chief Executive Officer of Gilead said. "Over the past several years, I have enjoyed working with Don Rumsfeld as an active director and look forward to his new role as Chairman as we continue to build the Gilead business."

Gilead Sciences is a leader in the discovery and development of a new class of human therapeutics based on nucleotides, the building blocks of DNA and RNA. In 1996, Gilead's first product, VISTIDE (cidofovir injection), was cleared by the U.S. Food & Drug Administration for the treatment of cytomegalovirus (CMV) retinitis in patients with AIDS. Gilead has other nucleotide product candidates in human testing for the potential treatment of viral diseases caused by CMV, human immunodeficiency virus (HIV), hepatitis B virus, herpes simplex virus and human papillomavirus.

The Company's research and development efforts encompass three interrelated programs: small molecule antivirals, cardiovascular therapeutics and genetic code blockers for cancer and other diseases. Gilead's expertise in each of these areas has also resulted in the discovery and development of non-nucleotide product candidates, including neuraminidase inhibitors for the potential treatment and prevention of viral influenza and protease inhibitors for the potential treatment of HIV.

FONTE: http://www.gilead.com/wt/sec/pr_933190157/