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sexta-feira, abril 16, 2010

Energia nuclear e dependência tecnológica

Como pano de fundo das pressões dos EUA para impor sanções que impeçam o Irã de desenvolver seu programa nuclear está o veto imperial visando intimidar todos os países que dão passos concretos para romper a dependência tecnológica. Esta dependência funciona como um vergonhoso muro que bloqueia o desenvolvimento soberano de inúmeros países emergentes, mas com desdobramentos planetários. A pressão contra o Irã também atinge o Brasil. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida


A realização, nesta semana, da Cúpula Internacional para a Segurança Nuclear , supostamente para afastar o perigo de um confrontação nuclear mundial, reveste-se de farsa discursiva e prática. A participação de Lula neste evento convocado pelos EUA foi interessante. Como de hábito, Lula usou uma imagem simples e fortemente comunicativa para explicar o que anda ocorrendo nesta área nuclear, mesmo quando grandes potências assinam acordos e mais acordos de desarmamento, há mais de 40 anos, teoricamente de redução de ogivas. De vez em quando, disse Lula, eu jogo fora remédios velhos e vencidos....

Não há, rigorosamente, qualquer esforço sincero e comprovado de que as grandes potências atômicas estariam a zelar pela paz mundial, que não existe, e para afastar o perigo de um confrontação nuclear de conseqüências imprevisíveis, até o momento. Assim, é preciso extrair o que de fato está em jogo nestes grandes encontros internacionais. Tal como aquela Conferência do Clima de Copenhaguen, no final do ano passado, foi um grande fiasco, não resultando em qualquer acordo prático que levasse as potências poluidoras a deixar de emporcalhar o mundo, esta Cúpula da Segurança Nuclear também não trouxe qualquer tranqüilidade ou segurança ao mundo. Pudera, o próprio anfitrião, o presidente Barak Obama, acaba de autorizar o Congresso dos EUA a ampliar o orçamento da indústria bélica. E vale lembrar sempre: o orçamento militar dos EUA, sozinho, supera o orçamento de todos os demais países do mundo, somados. Isto mesmo, somados. Foi o que destacou Vladimir Puttin ao ser indagado por dileto repórter da BBC se os acordos militares entre Rússia e Venezuela não causariam preocupação em Washington....

TNP tem dois pesos e duas medidas


Assim sendo, além de revelar o quão hipócrita é o pronunciamento de Barak Obama indicando “preocupação” pela Venezuela estar montando, pela primeira vez em sua história, uma legítima capacidade de defesa que lhe permita não ser assaltada em suas imensas riquezas energéticas, como ocorre hoje com o Iraque e o Afeganistão - não há paranóia venezuelana nisto - é preciso entender que reuniões de cúpula como esta estão dirigidas, entre outros objetivos, a manter o imenso abismo existente entre o seleto grupo de países nucleares e os demais. Mas, com medidas práticas concretas, aí sim, dirigidas a desestimular, intimidar ou a punir, seja com sanções econômicas ou militares, aqueles países que ousem pretender uma independência tecnológica para alcançar o domínio da energia nuclear. E esses países, como é o caso Irã, são transformados em ameaça humanidade. Israel possui ogivas nucleares, mas , para demonstrar o grau de hipocrisia que preside tais reuniões de cúpulas, sequer é interpelado, advertido, admoestado. Todas as hipóteses de sanções são dirigidas exclusivamente ao Irã.

É correta a posição do Brasil ao reivindicar que a comunidade internacional , sobretudo os possuidores do porrete nuclear nas mãos, aprenda a dialogar, a negociar. Ou será admissível adotar-se uma vez mais a opção iraquiana. Inventa-se qualquer mentira e despacha-se para o Irã a terrível máquina de morte dos EUA, já que estão em dificuldades para recuperar algum dinamismo da sua economia.

Mas, ao defender que o Irã tenha direito de desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos, o Brasil toca numa complexa e intrincada caixa de marimbondos. E nisto conta com a compreensão da China que, obviamente, percebe que as ameaças contra o Irã são destinadas a afetar um dos parceiros mais importante do gigante asiático em seu estupendo crescimento econômico enquanto os EUA patinam na recessão.

Turbinas nucleares sequestradas

Vale lembrar que o Brasil já foi objeto de pressões e sabotagens muito similares às que sofre o Irã hoje. Durante a Era Vargas, que os neoliberais quiseram e ainda querem demolir, o Brasil comprou turbinas atômicas da Alemanha. Foi em 1952. Era parte da estratégia do Almirante Álvaro Alberto, idealizador do Programa Nuclear Brasileiro, para que o país tivesse condições de alcançar desenvolvimento tecnológico soberano nesta área estratégica. As pressões chegaram ao ponto extremo. As turbinas, prontas para serem embarcadas no Porto de Hamburgo para o Brasil, foram seqüestradas por um comando militar da OTAN, sob ordens dos EUA. Também sabemos como foram intensas as pressões norte-americanas contra o governo Geisel para que não firmasse o Acordo Nuclear com a Alemanha na década de 70. Agora, o governo iraniano denuncia que um de seus mais insignes cientistas nucleares foi seqüestrado a mando dos EUA. Definitivamente, este mundo para é para meigos....

O tema não é segurança mundial mas segurança dos países nucleares de que não perderão a condição de domínio exclusivo destas tecnologias e, como ela, o poder de impor dependência tecnológica ao mundo. Que não surjam outros concorrentes. Foi o que disse certa o sinistro Henry Kissinger, ex-secretário de estado dos EUA, referindo-se ao Brasil: “não permitiremos que surja um novo Japão abaixo da linha do Equador”. A discussão não é nada nova, apenas vem revestida com ingredientes atuais como a difusa ameaça terrorista, agitada como justificativa para a “comunidade internacional” puna os países rebeldes.

Romper a vassalagem tecnológica
Foi também na Era Vargas, quando da criação da Petrobrás, que o Brasil sofreu uma enorme pressão para que pretendesse ter independência na área da energia do petróleo. Até anúncios foram publicados nos jornais brasileiros pelas transnacionais para que decretar: “está provado que no Brasil não há petróleo” e , portanto, seria uma loucura criar a Petrobrás. Um dos jornais que publicou estas orientações imperiais, o Estado de São Paulo, hoje está aí a editar posições contra a revitalização da Telebrás, contra a nacionalização dos fertilizantes, ou simplesmente pedindo que a TV Brasil seja extinta, apesar de sua existência estar prevista na Constituição.

Além do caso do petróleo, vale citar também o exemplo da indústria aeronáutica. O desenvolvimento de uma indústria aeronáutica de porte pelo Brasil parecia ser o resultado lógico e natural da histórica conquista tecnológica iniciada por Alberto Santos Dumont. No entanto, após a criação da Embraer, a mentalidade presidida pela vassalagem tecnológica e que acreditava que o Brasil não podia mais ou que não tinha o direito a uma posição soberana no cenário aeronáutico internacional, optou pela privatização da estatal. Recentemente, a Venezuela apresentou proposta de compra de 150 aviões Tucanos da Embraer. Quando a transação estava por ser concluída, a dependência tecnológica se impôs: os EUA vetaram a venda, alegando que os Tucanos contam com tecnologia norte-americana e que não poderiam ser vendidos à Venezuela de Hugo Chávez.. Aliás, era um simples computador de bordo que poderia perfeitamente ser desenvolvido aqui mesmo se o CPQD não tivesse sido demolido no vendaval da privataria. Resultado: a Venezuela comprou aviões similares da China e a Embraer, sem encomendas, demitiu 4800 trabalhadores.

Uma nova ordem internacional


A dependência tecnológica que querem impor ao Irã desdobra-se como pressão também contra o Brasil, possuidor de uma das mais eficientes e cobiçadas tecnologias de centrifugas nucleares. A pressão alinhavada na Cúpula da Segurança Nuclear destina-se a pressionar também os países emergentes a firmar o aditivo ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, pelo qual, a Agência Internacional de Energia Atômica poderia fazer “inspeções”, sem aviso, a quaisquer instalações onde haja desenvolvimento de experiências de natureza nuclear. Faz bem a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Brasil em alertar para os riscos que estão embutidos por trás destas grandiloqüentes proclamações sobre segurança nuclear.

Acerta o presidente Lula quando afirma que Brasil e China estão na obrigação de lutar por uma nova ordem internacional. Acertam os países do IBAS quando firmam acordo para fabricação de satélite próprio superando grave vulnerabilidade tecnológica que marca o setor. Acertam os países do BRIC quando marcam presença por outras áreas do planeta, por exemplo, por meio dos acordos para o desenvolvimento nuclear que Rússia está propondo implementar com Venezuela e Argentina. Erra o jornal Correio Brasiliense, incapaz de compreender a transcendência histórica da reunião realizada em Brasília, desinformando sobre o conteúdo e magnitude dos acordos estatais firmados, preferindo dar destaque inconcebível aos problemas que o encontro causou ao trânsito e trazendo como manchete um improvável desfecho para a paroquial crise da corrupção no Distrito Federal, que traumatizou o próprio diário capitalino, tão beneficiado pela panetônica publicidade do Palácio do Buriti. Erra também o Green Peace em seu protesto estudantil - certamente apoiado por instituições alimentadas pela indústria petroleira e da Realeza Financeira Britânica - sem perceber que no Itamaraty estavam reunidos pelo menos dois dos países que mais se esforçam e contribuem para um novo padrão energético internacional mais limpo. O Brasil, com a biomassa e a hidroeletricidade, e a China, país que líder nos investimentos e na produção de equipamentos para a energia solar.

Ou seja, não é difícil usar o perigo real de uma conflagração nuclear para esconder uma série de iniciativas e de arranjos visando manter o mundo marcado pela dependência tecnológica que prejudica a imensa maioria dos povos. Sobretudo, quando certa mídia não quer revelá-los.


Fonte: Carta Maior

terça-feira, janeiro 20, 2009

Discurso de posse de Barack Obama

O presidente dos EUA, Barack Obama, discursou durante 20 minutos na cerimônia de posse que o nominou o 44º presidente americano. Abaixo, as palavras do novo líder.

Meus amigos cidadãos:

Eu me coloco aqui hoje com humildade para a tarefa que temos diante de nós, grato pela confiança que vocês têm concedido, consciente dos sacrifícios carregados pelos nossos antepassados. Agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele demonstrou durante esta transição.

Quarenta e quatro americanos agora já tomaram o juramento presidencial. As palavras têm sido ditas durante ascendentes marés de prosperidade e ainda em águas de paz. No entanto, algumas vezes o juramento é tomado em meio a nuvens carregadas e tempestades furiosas.

Nesses momentos, a América tem se mantido não por causa da habilidade ou visão dos que estão nos altos cargos simplesmente, mas porque nós, o povo, temos permanecido fiéis aos ideais dos nossos ancestrais e fiéis aos documentos dos nossos fundadores. Portanto, é como tem sido. Portanto, isto deve estar com esta geração de americanos.

Que nós estamos no meio da crise está agora bem compreendido. Nossa nação está em guerra, contra uma crescente rede de violência e ódio. A nossa economia está muito debilitada, uma consequência da ganância e da irresponsabilidade de alguns, mas também do nosso fracasso coletivo de fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas, empregos deixados, empresas fechadas.

O nosso sistema de saúde é muito caro; nossas escolas enfraqueceram demais, e cada dia traz mais uma evidência de que as maneiras como usamos a energia fortalecem os nossos adversário e ameaçam o nosso planeta.

Estes são os indicadores da crise, submetidos a dados e estatísticas. Menos calculada, mas não menos profunda, é a corrente desconfiança em toda a nossa terra - um perturbante medo de que o declínio da América é inevitável e que a próxima geração deve reduzir seus horizontes.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que encaramos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão facilmente vencidos ou em um curto espaço de tempo. Mas saiba isto, América — eles serão vencidos. Neste dia, estamos unidos porque escolhemos a esperança ao invés do medo, a unidade de objetivos ao invés do conflito e da discórdia.

Neste dia, nós viemos para dar um basta aos problemas mesquinhos e falsas promessas, às recriminações e dogmas desgastados, que durante muito tempo têm estrangulado a nossa política.

Continuamos sendo uma nação jovem, mas, nas palavras da Escritura, chegou a hora de deixar de lado as coisas infantis. Chegou a hora de reafirmar o nosso espírito duradouro; de escolher a nossa melhor história, de levar adiante aquela preciosa lembrança, aquela nobre ideia, transmitida de geração para geração: a promessa dada por Deus de que todos são iguais, todos são livres e todos merecem uma oportunidade de perseguir as suas plenas medidas de felicidade.

Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, nós entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela deve ser merecida. Nossa jornada nunca foi de pequenos cortes ou estabelecida para menos. Ela não tem sido o caminho para o medroso — para aqueles que preferem o lazer ao invés do trabalho, ou procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama.

Pelo contrário, ela tem sido para os corajosos, para os empreendedores, para os criadores de coisas — alguns célebres, mas frequentemente homens e mulheres obscuros em seus trabalhos, que têm nos sustentado ao longo da áspera caminhada rumo à prosperidade e à liberdade.

Por nós, eles empacotaram as suas poucas posses mundanas e viajaram através dos oceanos em busca de uma nova vida. Por nós, eles trabalharam duramente em empregos escravizantes e estabeleceram o Ocidente; aguentaram o açoite do chicote e lavraram a dura terra. Por nós, eles lutaram e morreram em lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sahn.

Ontem e hoje novamente estes homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até esfolarem as suas mãos para que possamos viver uma vida melhor. Eles viram a América maior do que a soma das nossas ambições individuais; superior a todas as diferenças de origem ou de riqueza ou de facção. Esta é a jornada que hoje prosseguimos.

Continuamos sendo a mais próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando a crise começou. Nossas mentes não são menos criativas, nossos benefícios e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no último mês ou no último ano. Nossa capacidade permanece inalterada.

Mas o nosso tempo de prestígio permanente, de proteção dos interesses reduzidos e do adiamento de decisões desagradáveis - este tempo certamente passou. A partir de hoje, temos de nos erguer, tirar o pó que nos cobre e começar novamente o trabalho de transformação da América.

Para todo lado que olhamos, há trabalho a ser feito. O estado da economia exige uma ação, rápida e ousada, e nós vamos agir — não apenas para criar novos empregos, mas para estabelecer uma nova base para o crescimento. Nós vamos construir as estradas e pontes, as redes elétricas e linhas digitais que alimentam o nosso comércio e nos unem.

Vamos restaurar a ciência ao seu lugar correto, e utilizar com eficácia as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade da saúde e reduzir o seu custo. Vamos aproveitar o sol e os ventos e o solo para alimentar os nossos carros e ativar nossas fábricas. E vamos transformar as nossas escolas e faculdades e universidades para atender as demandas da nova era. Tudo isto é possível fazer. E tudo isto nós vamos fazer.

Agora, há alguns que questionam a dimensão das nossas ambições — que sugerem que o nosso sistema não pode tolerar planos muito grandes. Suas memórias são curtas. Para eles terem esquecido o que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem realizar quando a imaginação está dentro do objetivo comum, e requer a coragem.

O que os cínicos não compreendem é que o chão mudou debaixo deles — que os argumentos políticos rançosos que têm nos consumido há tanto tempo já não se aplicam. O que nós questionamos hoje não é se o nosso governo é muito grande ou muito pequeno, mas se ele funciona — se ajuda as famílias a encontrarem trabalho de um salário decente, preocupa-se se eles podem pagar, uma reforma que seja digna.

Se a resposta é sim, nós temos a intenção de avançar. Se a resposta é não, os programas vão terminar. E aqueles de nós que gerenciam dólares públicos serão preparados a prestar contas — para gastar com sabedoria, mudar os maus hábitos e fazer os nossos negócios à luz do dia — pois só assim poderemos restabelecer a vital confiança entre um povo e seu governo.

Também não é a questão que temos diante de nós se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade é inigualável, mas esta crise nos lembrou que, sem um olhar atento, o mercado pode ficar fora de controle — e que uma nação não pode prosperar quando ela favorece apenas os prósperos.

O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas da dimensão do nosso Produto Interno Bruto, mas sobre o alcance da nossa prosperidade; sobre a nossa capacidade de estender oportunidades para todos os corações dispostos — e não por caridade, mas porque é o caminho certo para o nosso bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, nós rejeitamos a falsa escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais. Os nossos Pais Fundadores, confrontados com perigos que dificilmente podemos imaginar, traçaram uma carta de direitos para assegurar a autoridade da lei e os direitos do homem, um carta expandida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abandoná-los por conveniências.

E assim, para todos os povos e governos que estão nos assistindo hoje, das grandes capitais à pequena vila onde meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de cada nação e cada homem, mulher e criança que persegue um futuro de paz e dignidade, e que estamos dispostos a liderar mais uma vez.

Lembrem-se de que as gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles entenderam que o nosso poder, sozinho, não pode proteger-nos nem nos confere fazer o que nos satisfaz. Em vez disso, eles sabiam que o nosso poder cresce através do seu uso prudente; nossa segurança emana da justiça da nossa causa, da força do nosso exemplo, das suavidades qualidades da humildade e moderação.

Nós somos os guardiões deste legado. Guiados por estes princípios uma vez mais, nós podemos superar essas novas ameaças que demandam ainda grande esforço - ainda maior cooperação e entendimento entre as nações. Vamos começar a deixar responsavelmente o Iraque para o seu povo, e forjar uma difícil e merecida paz no Afeganistão.

Com velhos amigos e antigos adversários, vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear e deixar para trás o espectro do aquecimento global. Não vamos pedir desculpas pela nossa forma de vida, nem vamos vacilar em sua defesa, e para aqueles que procuram fazer avançar os seus objetivos pela indução do terror e massacre de inocentes, dizemos-lhe agora que o nosso espírito é forte e não pode ser quebrado; vocês não podem durar mais do que nós, e nós vamos derrotá-los.

Nós sabemos que o nosso patrimônio costurado é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e não-crentes. Nós somos moldados por cada língua e cultura, traçadas a partir de cada extremidade da Terra; e por termos provado o gosto amargo da Guerra Civil e da segregação, e termos emergido fortes e mais unidos deste capítulo escuro, não podemos evitar, mas acredito que os velhos ódios devem passar um dia; que as linhas do clã devem se dissolver rapidamente; que, enquanto o mundo que cresce aos poucos, a nossa humanidade comum deve revelar-se, e que a América deve desempenhar o seu papel no início de uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho, baseado no interesse e no respeito mútuos. Para aqueles líderes que procuram semear o conflito no mundo ou culpar o Ocidente pelos males das suas socidades — saibam que os seus povos irão decidir sobre o que vocês podem construir, e não o que podem destruir. Para aqueles que se agarram ao poder através da corrupção e da fraude e do silenciamento da discórdia, saibam que vocês estão no lado errado da história; mas que vamos estender a mão se vocês estiverem dispostos a abrir o punho primeiro.

Para as pessoas de nações pobres, nos prontificamos a trabalhar com vocês para florescer as suas fazendas e deixar as águas correrem limpas; para nutris corpos famintos e alimentar mentes famintas. E para aquelas nações como a nossa, que gozam de relativa fartura, dizemos que não podemos mais ser manter a indiferença ao sofrimento fora de nossas fronteiras, nem podemos consumir os recursos mundiais sem considerar as consequências. Pois o mundo mudou, e precisamos mudar com ele. Ao considerarmos os caminhos que se abrem diante de nós, lembramos com humildade aqueles bravos americanos que, nesta exata hora, patrulham desertos longínquos e montanhas distantes.

Eles têm algo a nos dizer hoje, bem como aqueles heróis que jazem em Arlington sussurram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles incorporam o espírito de servir; uma vontade de realizar algo maior que eles mesmos. E, neste momento — um momento que definirá uma geração-, é esse espírito que tem de habitar em todos nós.

Pois, por mais que o governo possa fazer e tenha que fazer, no fim é sobre a fé e a determinação do povo americano que esta nação se apoia. É a gentileza de abrigar um estranho quando as barragens se rompem, é o desprendimento dos trabalhadores que preferem um corte em suas horas trabalhadas a ver um amigo perder o emprego que nos observa em nossas horas mais complicadas.

É a coragem do bombeiro de subir uma escadaria cheia de fumaça, mas também a disposição dos pais em nutrir um filho que no fim decide nosso destino. Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais podemos superá-los podem ser novos. Mas aqueles valores sobre os quais depende o nosso sucesso — trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo — essas são coisas antigas e verdadeiras. Elas têm sido a força silenciosa do progresso ao longo da nossa história.

O que se exige, então, é retornar a essas verdade. O que se pede agora é uma nova era de responsabilidade — o reconhecimento, por parte de cada americano, de que temos deveres para conosco, nosso país e o mundo; deveres que não aceitamos com rancor, mas que recebemos com gratidão, certos de que não há nada tão satisfatório para o nosso espírito, nada tão definidor de nosso caráter que entregamos tudo de nós a uma tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania. Esta é a fonte da nossa confiança - a certeza de que Deus nos chama para moldar um destino incerto. Esse é o sentido da nossa liberdade e da nossa crença — por que cada homem e mulher e criança de cada raça e cada crença podem se juntar em celebração nesta magnífica avenida, e por que um homem, cujo pai há menos de 60 anos podia não ser servido em um restaurante local, pode agora estar diante de vocês para fazer o juramento mais sagrado.

Vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe chegamos. No ano do nascimento dos Estados Unidos, no mais frio dos meses, um pequeno bando de patriotas se juntou ao redor de fracas fogueiras à beira de um rio gelado. A Capital foi abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Em um momento em que se duvidada da revolução, o pai da nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas ao povo:

"Que isso seja dito ao mundo futuro. Que nas profundezas do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderiam sobreviver. Que a cidade e o país, alarmados por um perigo comum, avancem para enfrentar."

América, diante de nossos perigos em comum, neste inverno de dificuldades, vamos lembrar essas palavras imemoriais. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez as correntes geladas e as tempestades que podem vir.

Que os filhos de nossos filhos digam que, quando fomos testados, nos recusamos a deixar essa jornada acabar, que não recuamos, nem que hesitamos; e com olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus sobre nós, levamos adiante nossa liberdade e a entregamos em segurança para as gerações futuras.

domingo, janeiro 18, 2009

Obama, Lula e Sarkozy são modelos do século XXI, diz especialista

Vice-Presidente do think-thank Public Agenda e autor de Forgive Us Our Debts: The Intergenerational Dangers of Fiscal Irresponsibility, publicado nos Estados Unidos pela editora da Universidade de Yale, Andrew L. Yarrow defendeu, em artigo publicado na página de opinião do The Baltimore Sun, que a apologia da impossibilidade funcional dos governos está com os dias contados. E que um trio de líderes - formado pelo recém-eleito Barack Obama, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o brasileiro Luiz Ignácio Lula da Silva - representam a ascendência, no mundo ocidental, do idealismo, do ativismo e da cooperação supra-partidária sobre o unilateralismo, a política mais convencional e o apadrinhamento de aliados característico da administração Bush.

Professor da American University e consultor do centrista Brookings Institution, Yarrow vai além e propõe o estabelecimento de uma nova era, calcada na imagem dos presidentes de Brasil, França e EUA. "Prestando atenção no simbolismo político dos três estadistas, vê-se que o mundo democrático está entrando em um novo período, tão definitivo e transformador quanto o pacto social-democrático de Franklin Delano Roosevelt após a Segunda Guerra Mundial, o chamado Consenso Liberal, ou a Ascensão Conservadora das últimas três décadas, marcadas pelas políticas de Ronald Reagan e Maragareth Thatcher", escreve.

Para o historiador, que deixou a reportagem do The New York Times para investir na vida acadêmica, completando a pós-graduação Universidade de Harvard e trabalhando no governo Bill Clinton, o comprometimento com a Justiça Social dos três líderes está um passo à frente da Terceira Via de Clinton e Tony Blair, representada no Brasil pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O cerne do sucesso dos três líderes, diz Yarrow, está na idéia de compaixão social condicionada à responsabilidade pessoal - no Brasil, com as contrapartidas exigidas pelo Bolsa Família, nos EUA, com o discurso de Obama voltado para o ativismo social dos mais abastados e a necessidade de a comunidade afro-americana voltar a investir nos valores de fortalecimento familiar - e em uma visão internacionalista comprovada pela movimentação de Paris e Brasília durante a mais recente crise no Oriente Médio, trabalhando ativamente por uma trégua entre Israel e os palestinos.

O Terra conversou com o professor da American University sobre sua previsão de que os próximos anos no mundo ocidental serão moldados pela ação de Lula, Obama e Sarkozy. Yarrow só não quis emitir opinião sobre a sucessão presidencial no Brasil, tema que acompanha de longe e com enorme atenção - a se julgar por seus questionamentos sobre a possível candidatura da ministra Dilma Roussef em 2010.

O senhor diz que o Lula, Obama e Sarkozy desafiam, cada um a seu modo, a política convencional. Pode explicar melhor esta sua observação?
Lula, Obama e Sarkozy são, os três, líderes políticos pós-partidários. Eles combinam um comprometimento com a inclusão e a justiça social com um crescimento econômico que beneficie ao mesmo tempo trabalhadores e empresários. Eles refutam os moribundos modelos advindos do "Consenso de Washington", o capitalismo neo-liberal pós-Reagan e Thatcher, calcado na desregulamentação dos mercados. Mas também não são estatizantes per se, não se aproximam de modelos socialistas tal qual os conhecemos. Lula com o PT, Obama com os Democratas, e Sarkozy com os gaullistas e os democrata-cristãos, estabeleceram rupturas com as culturas políticas mais características de seus grupos partidários.

O senhor fala do Consenso Liberal dos anos 30 e da Revolução Conservadora dos 70-80. O que esperar da era de Lula-Obama-Sarkozy?
A era de Lula-Obama-Sarkozy é marcada por um retorno, em âmbito interno, das políticas de crescimento econômico emparelhadas com a busca de Justiça Social. Os três também representam, não apenas através de seus atos, mas por suas próprias trajetórias de vida, um mundo mais multi-cultural, mais globalizado. Em política externa, talvez menos com Obama, embora ele tenha se comprometido com a tese durante a campanha eleitoral, os três são arquitetos de um novo internacionalismo, que acredita na intervenção em casos de emergências humanitárias, em casos de genocídio e grandes epidemias, por exemplo.

O senhor diz também que os três são "figuras ultra-públicas". Pode explicar melhor esta idéia?
Lula, Obama e Sarkozy são três figuras extremamente carismáticas. E, embora manchados um pouco por problemas relacionados às suas atividades pessoais, especialmente o líder francês, os três restauraram a fé na vida pública e fizeram com que os cidadãos de seus países acreditassem na eficácia do governo novamente. Obama e Lula, particularmente, inspiram esperança e conseguiram trazer para o tabuleiro político parcelas do eleitorado que não tinham voz em seus respectivos países. E os três são figuras públicas dispostas a atos dramáticos, que chamam atenção para aspectos críticos tanto de situações internas quanto de crises internacionais.

Quando o senhor fala de Lula em seu artigo, um dos destaques é a noção de 'responsabilidade condicional' colocada novamente na mesa a partir da fórmula do Bolsa Família. Por que acredita que este aspecto é tão fundamental na consolidação do fenômeno Lula?
É a idéia de que, não esquecendo que o governo deve ajudar a incrementar o bem-estar da população, e provê-los segurança, os indivíduos devem assumir uma maior responsabilidade pessoal pelas suas vidas. Lula e Obama defendem um novo contrato social - diferente tanto do liberal do pós-guerra quanto do consenso conservador dos anos 80 - que oferece um balanço entre as responsabilidades do Estado e as do cidadão comum.

Como o senhor definiria cada um destes três líderes que, de acordo com o senhor, estariam redefinindo ideologicamente o mundo ocidental?
Lula, Obama e Sarkozy são homens que chegaram à liderança política emergindo de áreas distantes das elites tradicionais de Brasil, Estados Unidos e França. Eles chegaram ao poder através de seu carisma, da capacidade de fazer com que a população acreditasse em seus esforços em relação a melhoria da vida em seus países, e da coragem de abraçarem novas filosofias, calcadas em extraordinária capacidade de organização e mobilização política.

Fonte: Terra, por Eduardo Graça


domingo, janeiro 11, 2009

Bush defende interrogatórios e asfixia simulada contra detidos por terrorismo

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, defendeu hoje os métodos de interrogatórios autorizados por seu governo contra os detidos na luta antiterrorista e afirmou que a "asfixia simulada" ajudou a salvar vidas.

Em entrevista divulgada pela rede "Fox", Bush lembrou que seu governo foi marcado pelos atentados terroristas de 2001 e, portanto, "utilizou os poderes (presidenciais) consagrados na Constituição para defender" o país.

Acompanhado de Bush pai, o presidente americano disse que as controvertidas técnicas de interrogatórios "eram e são necessárias em ocasiões inusitadas para obter informação para proteger o povo americano".

Citou como exemplo o caso do estrategista da Al-Qaeda, Khalid Sheikh Mohammed, que supostamente foi submetido à asfixia simulada, um método condenado por grupos humanitários e pela comunidade internacional como método de tortura.

Mohammed, detido no Paquistão e levado para uma prisão clandestina na Polônia, "foi o cérebro dos atentados do dia 11 de setembro de 2001 que mataram quase 3 mil pessoas em nosso solo", destacou Bush.

— Acho que quando o povo estudar a história deste episódio em particular, verão que obtivemos boa informação de Khalid Sheikh Mohammed para proteger nosso país — argumentou Bush.

A entrevista foi divulgada no mesmo dia em que ativistas de diversas organizações humanitárias organizaram vigílias e outros atos de protesto dentro e fora do país contra o centro de detenções dos EUA em Guantánamo, no sétimo aniversário de sua criação.

Em Washington, ativistas da Anistia Internacional e outros grupos, vestidos com o uniforme laranja dos detidos, exigiram o fechamento de Guantánamo e o respeito aos direitos humanos.

O presidente eleito de EUA, Barack Obama, disse à rede "ABC" que de seu ponto de vista, a asfixia simulada é tortura e reiterou sua promessa de fechar Guantánamo, apesar de possivelmente não poder cumpri-la durante os primeiros cem dias de seu Governo.

Durante a entrevista à "Fox", Bush disse que sua saída de Washington será um momento agridoce e de emoções porque, por um lado, sentirá saudades de ser o comandante-em-Chefe.


Fonte: ZeroHora