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quarta-feira, novembro 03, 2010

OAB reage a ataque ao Nordeste no Twitter

Universitária de SP que iniciou ofensas deverá responder por crime de racismo

Alessandra Duarte

A seção Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE) entra hoje, na Justiça de São Paulo, com representação criminal contra a onda de ataques aos nordestinos divulgada por meio do Twitter após a eleição de Dilma Rousseff.

No domingo à noite, usuários da rede de microblogs começaram a postar mensagens ofensivas ao Nordeste, relacionando o resultado à boa votação de Dilma na região.

A representação da OAB-PE é contra a estudante de Direito Mayara Petruso, de São Paulo, uma das que teriam iniciado os ataques.


Segundo o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, Mayara deverá responder por crime de racismo (pena de dois a cinco anos de prisão, mais multa) e incitação pública de prática de crime (cuja pena é detenção de três a seis meses, ou multa), no caso, homicídio.

Entre as mensagens postadas pela universitária, há frases como: "Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!".

- São mensagens absolutamente preconceituosas. Além disso, é inadmissível que uma estudante de Direito tenha atitudes contrárias à função social da sua profissão. Como alguém com esse comportamento vai se tornar um profissional que precisa defender a Justiça e os direitos humanos? — diz Mariano.

Em julho deste ano, a seção pernambucana da Ordem já havia prestado queixa à Polícia Federal contra pelo menos dez usuários do Twitter, por mensagens ofensivas aos nordestinos após as enchentes na região.


- Essas redes sociais são meios de comunicação de alcance nacional, e crimes que ocorram nelas são de ordem federal. São ofensas que atingem a todos os nordestinos, existe um direito difuso aí sendo desrespeitado — completa Mariano, para quem o nível agressivo da campanha pela internet este ano, apesar de não justificar os ataques, pode tê-los estimulado.

No domingo, usuários do Twitter insatisfeitos com a vitória de Dilma começaram a postar frases como "Tinham que separar o Nordeste e os bolsas vadio do Brasil" e "Construindo câmara de gás no Nordeste matando geral".

Como reação, outros usuários passaram a gerar uma onda de mensagens com "#orgulhodesernordestino", hashtag que ficou entre os primeiros lugares no ranking mundial de temas mais citados no Twitter.

Fonte: O GLOBO

sexta-feira, junho 19, 2009

A cota de sucesso da turma do ProUni

Elio Gaspari - Escritor e jornalista

A DEMOFOBIA pedagógica perdeu mais uma para a teimosa insubordinação dos jovens pobres e negros. Ao longo dos últimos anos o elitismo convencional ensinou que, se um sistema de cotas levasse estudantes negros para as universidades públicas, eles não seriam capazes de acompanhar as aulas e acabariam fugindo das escolas. Lorota. Cinco anos de vigência das cotas na UFRJ e na Federal da Bahia ensinaram que os cotistas conseguem um desempenho médio equivalente ao dos demais estudantes, com menor taxa de evasão. Quando Nosso Guia criou o ProUni, abrindo o sistema de bolsas em faculdades privadas para jovens de baixa renda (põe baixa nisso, 1,5 salário mínimo per capita de renda familiar para a bolsa integral), com cotas para negros, foi acusado de nivelar por baixo o acesso ao ensino superior. De novo, especulou-se que os pobres, por serem pobres, teriam dificuldade para se manter nas escolas.

Os repórteres Denise Menchen e Antonio Gois contaram que, pela segunda vez em dois anos, o desempenho dos bolsistas do ProUni ficou acima da média dos demais estudantes que prestaram o Provão. Em 2004, os beneficiados foram cerca de 130 mil jovens que dificilmente chegariam ao ensino superior (45% dos bolsistas do ProUni são afrodescendentes, ou descendentes de escravos, para quem não gosta da expressão).

O DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino foram ao Supremo Tribunal Federal, arguindo a inconstitucionalidade dos mecanismos do ProUni. Sustentam que a preferência pelos estudantes pobres e as cotas para negros (igualmente pobres) ofendiam a noção segundo a qual todos são iguais perante a lei. O caso ainda não foi julgado pelo tribunal, mas já foi relatado pelo ministro Carlos Ayres Britto, em voto memorável. Ele lembrou um trecho da Oração aos Moços de Rui Barbosa: "Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real".

A "Oração aos Moços" é de 1921, quando Rui já prevalecera com sua contribuição abolicionista. A discussão em torno do sistema de acesso dos afrodescendentes às universidades teve a virtude de chamar a atenção para o passado e para a esplêndida produção historiográfica sobre a situação do negro brasileiro no final do século 19. Acaba de sair um livro exemplar dessa qualidade, é "O jogo da Dissimulação - Abolição e Cidadania Negra no Brasil", da professora Wlamyra de Albuquerque, da Federal da Bahia. Ela mostra o que foi o peso da cor. Dezesseis negros africanos que chegaram à Bahia em 1877 para comerciar foram deportados, apesar de serem súditos britânicos. Negros ingleses negros eram, e o Brasil não seria o lugar deles.

A professora Albuquerque transcreve em seu livro uma carta de escravos libertos endereçada a Rui Barbosa em 1889, um ano depois da Abolição. Nela havia um pleito, que demorou para começar a ser atendido, mas que o DEM e os donos de faculdades ainda lutam para derrubar: "Nossos filhos jazem imersos em profundas trevas. É preciso esclarecê-los e guiá-los por meio da instrução". A comissão pedia o cumprimento de uma lei de 1871 que prometia educação para os libertos. Mais de cem anos depois, iniciativas como o ProUni mostraram não só que isso era possível mas que, surgindo a oportunidade, a garotada faria bonito.

sábado, dezembro 27, 2008

ISRAEL: os nazis do século 21

No pior ataque em 40 anos, Israel bombardeia Gaza e mata 205. Cerca de 50 aviões e helicópteros da Força Aérea israelense participaram da ofensiva.

Duzentos e cinco pessoas morreram e 750 ficaram feridas neste sábado em um ataque aéreo em massa em Gaza, no que foi a operação militar israelense mais violenta contra os palestinos em 40 anos.

— Não há registro de um dia mais mortífero desde a guerra de 1967. Israel não tinha matado, desde então, tanta gente em um só dia — afirmou Moawiya Hasanie, chefe dos serviços médicos de Gaza e coordenador da ajuda às vítimas.

Cerca de 50 aviões e helicópteros da Força Aérea israelense participaram do ataque, que aconteceu pouco antes do meio-dia (hora local), durou apenas dois minutos e destruiu 30 prédios. Além da Cidade de Gaza, a operação militar israelense incluiu alvos em outras localidades da Faixa, como Khan Yunis e Rafah, e entre os mortos há várias autoridades do Hamas.

No ataque, morreram o responsável da polícia do Hamas em Gaza, Tawfiq Jaber, o chefe da Segurança do Hamas, Ismail al-Jaabari, e o governador da circunscrição de Al-Wusta, na Gaza Central, Ahmad Abu Aashur.

— Foi como um terremoto, em instantes os edifícios vieram abaixo e os carros arderam em chamas — contou o comerciante Ahmed Ghannam.

A maioria dos imóveis atingidos pertencia ao Hamas ou era sede das forças de segurança do movimento islâmico, muitos deles situados em áreas residenciais.

O ataque causou pânico entre a população das áreas afetadas, e a televisão local mostrou imagens de civis pedindo vingança entre edifícios transformados em escombros, de onde apareciam corpos de policiais com o uniforme preto do Hamas.

Os centros médicos de Gaza ficaram sobrecarregados pela chegada dos mortos e feridos, até o ponto que, no principal hospital da Cidade de Gaza, Shifa, algumas vítimas eram atendidas nos corredores por falta de leitos suficientes.

O bombardeio ocorreu dois dias depois que o governo israelense decidiu empreender uma operação militar em grande escala em Gaza se os grupos armados palestinos continuassem lançando foguetes contra seu território.

Segundo a imprensa israelense, a execução dessa intervenção militar aconteceria a partir de domingo, para dar tempo às autoridades egípcias de realizar uma última tentativa de mediação entre Israel e Hamas.

A mediação egípcia tinha o objetivo de renovar a trégua que as duas partes assinaram em junho e concluiu no último dia 19 sem que tivesse sido acordada sua continuidade.

Após o ataque, porta-vozes do Hamas anunciaram que o movimento continuaria resistindo "até a ultima gota de sangue". Pouco depois do alerta, os grupos armados palestinos de Gaza lançaram mais de 20 foguetes artesanais sobre as cidades israelenses que fazem divisa com a Faixa.

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, não descartou que os ataques do Exército do Estado judeu em Gaza "prossigam e se ampliem se for necessário" nos próximos dias. Barak ordenou que as povoações israelenses divisórias a Gaza permaneçam em "estado de alerta", e antecipou que os próximos dias "serão difíceis".

Já a ministra de Exteriores israelense, Tzipi Livni, convocou à tarde uma entrevista coletiva em Tel Aviv na qual ressaltou que o país "não tem outro remédio" além de recorrer à força para desmantelar a infra-estrutura do Hamas.

O massacre de Gaza causou revolta na Cisjordânia, onde o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, condenou em Ramala o ataque e pediu o fim da operação militar israelense. No final da tarde, a condenação tinha se estendido às ruas em cidades cisjordanianas como Belém, cujas autoridades municipais ordenaram a suspensão das festividades populares organizadas por ocasião do Natal. Já em Jerusalém Oriental (árabe), grupos de jovens palestinos atiraram pedras contra as forças de ordem do Estado judeu.

Texto da ZeroHora