quarta-feira, novembro 03, 2010
OAB reage a ataque ao Nordeste no Twitter
terça-feira, setembro 07, 2010
QUEM TEM MEDO DA DEVASSA?
segunda-feira, janeiro 11, 2010
O neoliberal anti-Lula da "Newsweek"
Agora, no entanto, um ativo crítico de mídia dos EUA – Peter Hart, da revista "Extra!", publicada pela organização FAIR (Fairness & Accuracy in Media, Honestidade e Precisão na Mídia) – submeteu o trabalho de Margolis, tão prodigamente premiado aqui pelo alinhamento ao neoliberalismo e até ao Consenso de Washington, a análise séria e rigorosa. E com uma visão de esquerda.
O resultado foi uma crítica demolidora – apesar de Hart, aparentemente, nada saber sobre a intimidade promíscua de Margolis com os ressentidos ex-detentores do poder no Brasil, alijados pelo voto popular depois da compra de votos no Congresso que permitiu a reeleição em 1998. A análise na "Extra!" deu-se ao trabalho de cotejar os textos do correspondente nos últimos anos.
Consenso de Washington salvou o Brasil?
Se a crítica ao menos tornar o jornalista de "Newsweek" mais cuidadoso já terá valido a pena: ele estava acostumado demais aos encômios ouvidos dos tucanos. Ao contrário de Merval Pereira, que recebeu o prêmio Moors Cabot em 2009 (a pretexto de ter “combatido valentemente a ditadura militar”, coisa que seu jornal na verdade nunca fez), Margolis pode até ter merecido o mesmo prêmio em 2003 por razões sólidas.
O correspondente tiraria proveito das críticas se tentasse distanciar-se mais dos aduladores tucanos – sempre à procura de jornalistas estrangeiros para convencê-los (em inglês: odeiam falar português) sobre méritos do governo FHC, que encaram como injustiçado. Ao exaltarem, por exemplo, a onda de privatizações selvagens, só teriam um ponto: foi ruim para o país, mas as comissões eram polpudas.
Na reportagem de capa de "Extra!", Hart é minucioso na análise dos textos de Margolis no período dos dois mandatos do presidente Lula. Expõe seu caráter tendencioso e preconceituoso – sempre na linha neoliberal que certamente soava como música aos ouvidos dos editores em Nova York. Chega ao extremo de afirmar, com todas as letras, que o Brasil foi salvo pelo Consenso de Washington.
O antetítulo do texto (“Meet Mac Margolis, their man in Latin America”, Conheça Mac Margolis, o homem deles na América Latina), é seguído pelo título em corpo maior, “Newsweek’s Name-Calling Neoliberal”, O neoliberal desbocado da Newsweek. A ilustração principal é uma capa-paródia da revista com a caricatura de Hugo Chávez à frente dos três que seriam seus inspiradores: Hitler, Mussolini e Stalin. Título: “Difamando a esquerda da América Latina”.
Será Oliver Stone a Riefenstahl de Chávez?
Quem comparou Chávez a três ditadores de uma vez foi Margolis, induzido pela própria inclinação ideológica, numa reportagem leviana publicada a 2 de novembro. Ali fazia piadas sobre a criação na Venezuela de uma produtora pública de cinema, com estúdio e tudo: “Como Mussolini e Stalin antes, o presidente Chávez criou seu próprio estúdio de cinema”. O objetivo, sugeriu, é a propaganda deslavada.
Escreveu ainda o corresponente em novembro: “Como os autocratas do século 20 que procura imitar, Chávez é fascinado pelo poder do cinema. Desde que Hitler voltou-se para Leni Riefenstahl os ditadores têm sonhado em ganhar a força épica da tela grande para seu script político. Com a Villa del Cine, posicionou-se, conscientemente ou não, como herdeiro dos totalitários maiores do século 20”.
Para Hart, não há muitas evidências de que as instalações de edição e os estúdios da Villa del Cine são passos iniciais rumo ao fascismo. Se fossem, observou ainda, o National Film Board do Canadá já teria há muito tempo empurrado esse país vizinho dos EUA para o Gulag. Mas Margolis prefere carregar nas tintas contra Chávez, crítico feroz do neoliberalismo e da retórica submissa ao poder das corporações.
Em plena crise financeira que golpeou o mundo graças à irresponsabilidade de Wall Street e dos bancos que criaram a bolha imobiliária, Margolis continuava fiel, em julho de 2009, ao desastroso rumo neoliberal. Escreveu: “Apesar do Consenso de Washington ter salvado sua economia, o Brasil hoje tenta enterrar a agenda ‘neoliberal’ das reformas de mercado, que nos anos 1990 impulsionaram os países em desenvolvimento.”
A afirmação é ainda mais insólita se for levado em conta o sucesso do governo Lula naqueles dias, a ponto de tornar o Brasil o primeiro país a sair da crise. Mas Margolis reclama mais privatizações. E acrescenta: “Não é a América Latina que precisa ser resgatada nos destroços das reformas de mercado. São as reformas que precisam ser resgatadas na América Latina”.
“Esses latinos contra o livre comércio?”
Hart registra com sarcasmo a enorme arrogância do comentário, que beira a desfaçatez. E sugere o que passa pela cabeça de Margolis – “Esses latinos babacas acham que vão desacreditar o livre mercado?” Na tentativa de explicar que o Consenso de Washington funcionou, disse Hart, não eram as reformas de mercado que tinham precisado de socorro. Assim o próprio Margolis escrevera em junho:
“Uma das explicações (…) para a atual trapalhada na América Latina tem como alvo o evangelho das reformas de livre mercado pregadas na década de 1990 pelos ‘pundits’ em Washington e ‘magos’ em Wall Street. Críticos do chamado Consenso de Washington argumentam que os frutos da estabilidade deixaram de alcançar as massas. Ao arranharem a superfície, o quadro pareceu mais complexo.
Através da América Latina, a mortalidade infantil tinha caído drasticamente, enquanto a alfabetização e a expectativa de vida tinham chegado às alturas, até na empobrecida Bolívia. Matrículas em escolas primárias e acesso à água potável e à eletricidade estão subindo. Mais cidadãos envolvem-se agora na política do que em qualquer época: indígenas já constituem 30% do Congresso boliviano”.
Para Hart, Margolis não viu necessidade de explicar a relação de causa e efeito entre as políticas econômicas neoliberais que ele apóia e a melhoria das condições de vida. Isso por achar a conexão auto-explicativa. Um sociólogo que tinha trabalhado na Bolívia, no entanto, discordou. Disse em carta à revista que muitos avanços resultaram de ações do governo – o oposto do que prega o “Consenso”, que exige austeridade orçamentária e mais privatizações.
Um populismo de talão de cheque?
No caso particular do Brasil, as avaliações equivocadas de Margolis parecem até tradução para o inglês daquilo que nossa grande mídia obstina-se em repetir em português. Às vezes Lula ganha elogio dele – mas só quando suas políticas parecem, por exemplo, favorecer os investidores de petróleo e o capitalismo global. “Lula não é Hugo Chávez”, chegou a dizer. Mas, de repente, ele volta ao ataque: “Lula dá guinada à esquerda”.
A suspeita de “populismo”, tão cara a FHC e seu Cebrap, sempre reaparece. “Com um olho na posteridade e outro na urna”, provocou. “Exatamente o tipo de armadilha populista que Lula tinha evitado até agora”, escreveu. O repúdio aos programas sociais que o neoliberalismo odeia também é recorrente. “Populismo de talão de cheque”, sentenciou. Hart estranhou tudo isso, lembrando como o Brasil saiu bem da crise.
Números e dados de Margolis nem sempre são confiáveis. “Quase 63% de jovens latinos dizem agora que o livre mercado beneficia todas as pessoas”, escreveu. Mas Hart explicou e corrigiu: “a pesquisa foi pela internet, a que só tinham acesso 31% da população; e mesmo assim Margolis não notou que nela sua tese era desmentida por 90%, favoráveis a que os governos façam mais para ajudar os pobres”.
No final, mais um escorregão de Margolis. Ele vê o continente às vésperas de uma virada à direita com as eleições dos próximos 17 meses no Brasil, Uruguai e Chile: “Em nenhum dos três países o partido de esquerda no poder é cotado para ganhar”. A realidade já o desmente. A esquerda ganhou no Uruguai e foi para o segundo turno no Chile, enquanto no Brasil Serra hesita em ser candidato, com medo de perder outra vez para a esquerda.
Restaria, enfim, lembrar que "Newsweek" incluiu Lula, há um ano, no 18° lugar da lista (encabeçada por Barack Obama) das 50 pessoas mais poderosas do mundo, o que chamou de “Elite Global”. Só não entendo porque os editores encomendam a Margolis textos sobre Lula: ele sempre dá um jeito de enfiar FHC, que quebrou o Brasil três vezes, como “o grande reformista”. Quanto à "Extra!", esse número de janeiro está à venda há apenas dois dias. O site da FAIR inclui algumas matérias, mas não a da capa, escrita por Hart. A assinatura anual (12 números de 16 páginas) da edição eletrônica em pdf custa US$15.
Blog de Argemiro Ferreira
terça-feira, janeiro 13, 2009
"A postura dos ricos me envergonha"
O arquiteto critica a elite nacional, diz que nunca teve Oscar Niemeyer como referência e conta por que é seletivo nos projetos
por Claudia Jordão
O paulistano Isay Weinfeld, 56 anos, é o arquiteto mais badalado do momento no País. Eclético, levam a assinatura dele os sofisticados hotéis Fasano do Rio de Janeiro e São Paulo, restaurantes do grupo, duas filiais da Livraria da Vila e a loja da Forum nos Jardins, todas na capital paulista, entre outros projetos. Mas, ao mesmo tempo que é assediado pela elite (ele projetou a casa do empresário Fernando Altério e do cineasta Hector Babenco), faz a linha low profile. Dá de ombros para as concorridas licitações internacionais para grandes obras e prefere investir em suas caixas de ângulos retos, que se abrem de fora a fora para revelar um amplo jardim - preceito que aparece nos trabalhos de Le Corbusier e no modernismo.
Enquanto toca cerca de 30 projetos, no Brasil e lá fora, lança o livro Isay Weinfeld (Bei Editora), que reúne 15 projetos residenciais realizados nos últimos dez anos. Filho de um imigrante polonês, separado e pai de uma filha, mora sozinho em um apartamento em São Paulo. Isay é um apaixonado por cinema - ele já dirigiu 14 curtas e o longa Fogo e paixão, de 1988 - e música (é fã do Radiohead). Sempre que pode, viaja para algum canto do planeta para assistir aos shows da banda, que se apresenta em março no País com a presença garantida dele, é claro.
ISTOÉ - O sr. faz casas, edifícios, lojas, hotéis, boates. Seu novo livro privilegia as residências por algum motivo especial?
Isay Weinfeld - Foi a maneira que encontrei de mostrar bem os projetos. Temos as plantas e várias fotos. São só 15 casas, realizadas nos últimos dez anos. Não que eu tenha muito mais; devo ter mais outras dez casas, mas quis mostrar direito, e eventualmente ter outro volume para trabalhos comerciais.
"No Hotel Fasano, conseguimos mostrar que é possível ser luxuoso sem ostentar. Não precisa ter dourado e rococó" |
ISTOÉ - O sr. é conhecido como um arquiteto que escolhe com quem trabalhar. O que o pauta na hora de pegar ou não um projeto?
Weinfeld - Em primeiro lugar, tenho interesse em fazer o que me dá prazer. De preferência, algo que eu não tenha feito antes, é isso que me move, por causa da minha exagerada curiosidade. Prefiro pegar um projeto completamente novo a um parecido com o que acabei de fazer.
ISTOÉ - Por exemplo?
Weinfeld - Depois da Disco (boate em São Paulo), vieram outras propostas de projetos de casas noturnas. Recusei porque não quis fazer, para não me repetir. É como se, naquele momento, eu tivesse dito tudo sobre o tema discoteca pelo viés da arquitetura. Então vamos deixar passar um tempo para, quem sabe, eu ter vontade de falar sobre o tema de novo.
ISTOÉ - Identificar-se com o cliente é fundamental?
Weinfeld - Depois do Fasano, tive várias propostas para fazer restaurante. Não é frescura, eu sou antitudo isso. Mas, por exemplo, se não gosto da comida, não consigo fazer o lugar. Não é porque sou metido ou arrogante, é que não vou saber fazer. Se não gosto da comida, isso quer dizer, de cara, que não tenho muito a ver com aquele proprietário. Com um cliente que tem um gosto compatível com o meu, como o (restauranteur) Rogério Fasano, não preciso me preocupar. Ou seja, se eu não escolher o copo da (lanchonete) Forneria, ele vai escolher o copo certo. Penso o projeto do início ao fim: o ambiente, a decoração, os objetos. Como sou macaco velho, não pego projeto por pegar. É preciso agradar ao cliente e a mim.
ISTOÉ - O que sente quando um projeto seu é alterado pelo cliente depois de entregue?
Weinfeld - Você tocou em um pontochave do meu trabalho. Inclusive acho que difere um pouco do pensamento geral dos outros profissionais dessa área. Primeiro, se a minha obra não permanecer, não faz a mínima diferença para mim. Se ela for modificada, não significa nada. Se ela for destruída, menos ainda. Não tenho preocupação com esse tipo de coisa. Segundo, acho um absurdo quando ouço arquitetos falarem que o cliente estragou sua obra. Isso é inconcebível de ouvir. Primeiro, porque se escolho os trabalhos que pego, o cliente jamais estragará. É óbvio, o gosto dele bate com o meu. Por isso, nunca comprei uma briga com um cliente. O arquiteto acha que tem que fazer o que quer, do jeito dele. Tenho de fazer o que meu cliente quer do meu jeito, sob o meu olhar.
ISTOÉ - O sr. critica o luxo que ostenta. É difícil trabalhar no Brasil?
Weinfeld - Não sei falar se é difícil, mas aqui não é muito diferente do Exterior. Meus clientes não valorizam a ostentação. Por isso, não tenho problema com isso. Mas entendo o que você está falando. Por outro lado, acho que essa é uma das minhas funções. Acho que no Hotel Fasano conseguimos mostrar que é possível ser luxuoso sem ostentar. Para mim, foi muito importante mostrar para uma turma que frequenta o luxo que não é preciso ter dourado e rococó e tudo o mais para ser requintado. Pode ser mais elegante e simples.
| |||||
ISTOÉ - O que pensa do gosto da elite nacional em geral? ISTOÉ - O que mais o incomoda? ISTOÉ - Qual a cidade mais bonita e a mais cafona no mundo? ISTOÉ - O que acha do trabalho de Oscar Niemeyer? ISTOÉ - O que gosta do que está sendo feito na arquitetura atual? ISTOÉ - Quais são suas principais fontes de inspiração?
ISTOÉ - Às vezes o sr. parece ter uma preferência maior pela música ou pelo cinema. Há alguma frustração em não ter seguido outra carreira? ISTOÉ - O projeto da casa onde o sr. mora é seu? ISTOÉ - Já projetou alguma casa para o sr. ou para sua família? ISTOÉ - Nunca teve vontade? ISTOÉ - Por quê? |
Fonte: ISTOÉ