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sábado, junho 27, 2009

Diploma de jornalista

Ulisses Capozzoli

A discussão recente (na verdade ela se arrasta há anos) envolvendo exigência de diplomas para jornalismo é o tipo de questão em que não se pode, mecanicamente, se declarar a favor ou contra, sem outras considerações.

O ataque sistemático contra o diploma tem partido especialmente do jornal Folha de S. Paulo, com o argumento, entre outros, de que foi uma decisão da ditadura militar.

Mas a implantação do Fundo de Garantia também foi uma solução da ditadura militar. E por que a Folha não se coloca contra a adoção do Fundo de Garantia?

A resposta é óbvia, ainda que a argumentação, em casos como este, costume passar por discursos envolvendo a “modernização” das relações de trabalho entre outras considerações.

Suspeito também a Folha se apegar tanto ao argumento de “solução da ditadura” porque, à época do governo dos generais, a Folha não tinha editorial. Ou seja, não manifestava a sua opinião, corroborando a versão popular do “quem cala consente”.

E isso sem considerar que o grupo Folhas, a que a Folha de S. Paulo pertence, tinha duas publicações sintomáticas, no sentido freudiano do termo.

Uma delas era a simplesmente horrorosa Notícias Populares, a versão mais repugnante do chamado “mundo cão”.

A outra era a Folha da Tarde, jornal francamente identificado com a ditadura militar que, agora, a Folha de São Paulo pretende caracterizar como nefasta.

Se não convence leitores mais críticos, a Folha ao menos conquista a parcela do estilo “me engana que eu gosto”, um tipo de gente que escreve cartas aos jornais apoiando o que quer que seja, ou desaprovando, não faz diferença.

O que a Folha pretende, na verdade, é dispor do que no passado foi chamado de “exército industrial de reserva”, e que hoje pode se entender como abundância de mão-de-obra, a custo baixo e submissa ao autoritarismo que caracteriza sua redação, uma das mais perversas da história do jornalismo.

Nesta semana o Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de seu presidente, o “deixa que eu chuto” Gilmar Mendes, anunciou o fim da exigência de diploma para jornalistas.

E Mendes, como é de seu estilo, trombeteou que essa é a solução final no caso.

Os atritos, próximo ao estilo briga de rua, que têm caracterizado o STF, sem falar dos transbordamentos egóicos que caracterizam parte de seus membros, combina com o estilo falastrão do ministro.

Em artigo publicado na Folha de ontem, no entanto (esse é o estilo de venda da imagem de modernidade do jornal) o advogado José Paulo Cavalcanti Filho colocou o assunto em termos inteligíveis e civilizados.

Não cabe, deixou claro Cavalcanti Filho, ao STF definir a obrigatoriedade ou não de diplomas para jornalistas (ou se meter na regularização/desregularização) de qualquer outra profissão.

Esse é um papel do Congresso Nacional, ainda que esse mesmo Congresso também venha nos dando espetáculos repetidos de atos constrangedores.

O fato, no entanto, e esse parece ser o centro da questão, é que por trás do fim do diploma para jornalistas não há qualquer pretensão de se elevar a qualidade do jornalismo brasileiro.

O buraco aqui, para fazer uso de uma expressão popular “é mais embaixo” e não tem relação com qualquer tipo de altruísmo ou coisas dessa natureza.

O interesse por trás do fim do diploma é simplesmente o barateamento da mão-de-obra e a elevada rotatividade profissional e essa é a ameaça que acompanha as frases feitas como as utilizadas pela Folha.

Qualquer telespectador de canais por assinatura pode constatar, em emissoras de países desenvolvidos, a quantidade de jornalistas veteranos envolvidos em coberturas, comentários e avaliações de fatos merecedores de abordagem jornalística.

Não é o que acontece no Brasil, onde a experiência profissional, a partir de certo momento, é mais identificada como ameaça, no sentido de resistência a atitudes indignas, que qualidade e isenção crítica sobre o que está em debate.

Dizer que a defesa do diploma caracteriza corporativismo é palavra de ordem, lógica fácil, uma forma de jogar areia nos olhos da sociedade.

Até porque a legislação atual aceita determinado percentual de jornalistas sem, obrigatoriamente, a exigência de diploma.

Na verdade, a regulamentação/desregulamentação da profissão de jornalismo, acompanhada de várias outras atividades, mereceria uma discussão pragmática, articulada com uma realidade nacional mais ampla e crítica.

Mas isso denunciaria interesses imediatos camuflados por trás de palavras de ordem, a lógica fácil que, especialmente críticos menos exigentes, tendem a aceitar como o equivalente da verdade.

Fonte: Revista Scientific American Brasil

sexta-feira, março 20, 2009

O Censor Gilmar Mendes: Carta aberta aos jornalistas do Brasil


Leandro Fortes

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado Comitê de Imprensa, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do Comitê de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.

Leandro Fortes
Jornalista

Brasília, 19 de março de 2009

Fonte: NovaE